Viver ao lado de alguém que está deprimido é, muitas vezes, uma experiência exigente e silenciosa, uma vez que o sofrimento depressivo não fica fechado dentro de quem o sente. Pelo contrário, entra no espaço da relação, altera o ritmo dos dias, pesa nas conversas, na intimidade e na esperança. É natural que quem acompanha se possa sentir permanentemente em alerta, tentando perceber o que dizer, o que não dizer ou como ajudar sem falhar. Instalando-se, a pouco e pouco, uma sensação difícil: a de querer muito aliviar o sofrimento do outro e, ao mesmo tempo, não saber verdadeiramente como fazê-lo.
Uma das armadilhas mais frequentes é exigir da pessoa deprimida uma vitalidade que, naquele momento, ela simplesmente não tem. Pedir que reaja, que se anime, que se esforce, que volte a ser “como era” pode nascer do amor, da aflição ou do cansaço, mas, na maioria das vezes acaba por aumentar ainda mais o sofrimento. A depressão não é uma simples falta de vontade, nem se resolve por apelo à força interior. Há momentos em que a pessoa está, de facto, sem acesso à energia psíquica necessária para corresponder ao que lhe é pedido. Reconhecer isso não é desistir dela. É respeitar a realidade do que está a viver e não acrescentar à dor o peso de também se sentir a falhar por não conseguir melhorar.
Ao mesmo tempo, estar ao lado de quem está deprimido não pode significar tornar-se o único suporte dessa pessoa. É importante tentar, com cuidado e persistência, que exista acompanhamento profissional, mesmo quando há resistência ou adiamento. Muitas vezes, quem está deprimido perde iniciativa, esperança e até a capacidade de pedir ajuda. É precisamente aí que a presença do outro pode fazer a diferença: insistir sem violência, encorajar sem impor, ajudar a marcar uma consulta, sustentar os primeiros passos até que a pessoa comece a ser acompanhada. Mas também é importante reconhecer um limite difícil: nem sempre conseguimos fazer com que o outro procure ajuda. Podemos abrir caminhos, mas há uma parte dessa decisão que pertence à própria pessoa.
Há ainda um aspeto de que se fala menos, mas que é importante não ignorar, viver ao lado de alguém com depressão pode ser emocionalmente muito desgastante e, por vezes, quem acompanha também precisa de apoio para conseguir pensar e sustentar o que está a viver. Procurar acompanhamento psicológico não significa abandonar o outro nem desistir da relação. Muitas vezes é precisamente o contrário: criar um espaço onde seja possível compreender melhor o que está a acontecer e encontrar formas mais sustentáveis de continuar presente.
Outra dificuldade, muitas vezes vivida em silêncio, é a culpa de continuar a sentir vivacidade e entusiasmo. Há quem se pergunte se é egoísta ter momentos de alegria, rir, descansar, sair ou sentir prazer quando se vive com alguém que está mergulhado numa tristeza profunda. Mas preservar a própria vitalidade não é egoísmo, é uma condição para que a relação possa existir. Quando a depressão ocupa todo o espaço, o risco é que a vida psíquica de ambos fique empobrecida.
Talvez seja esse o equilíbrio mais difícil: estar perto sem esmagar, cuidar sem invadir, compreender sem exigir ao outro aquilo que ele ainda não pode dar. Viver com alguém com depressão implica muitas vezes aprender a tolerar a impotência, a lentidão e a incerteza, sem transformar tudo isso em exigência ou desespero. Acompanhar verdadeiramente não é resolver nem arrancar o outro à força do lugar em que está, mas sim, permanecer dentro dos limites daquilo que é suportável. É nesse permanecer, com respeito por si próprio, que algo da relação se mantém vivo, mesmo quando tudo o resto parece suspenso. É viver não com a depressão do outro, mas apesar dela.
Artigo Por Dra. Patrícia Câmara, psicóloga / psicanalista
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