Caso Nº 11: Faminto

À semelhança do fogo que, desde os primórdios da humanidade, puxa os homens para o centro da roda para partilharem histórias e sustento, também o tribunal do The Verdict regressa à capital para investigar um mistério de brasa e memória. O caso número 10 está oficialmente aberto. Sejam bem-vindos ao Faminto ou, como a chama que ali arde sugere, ao lugar onde o essencial volta a ter o papel principal.

Não há julgamento sem que se perceba a origem do impulso. E a primeira pergunta impõe-se: o que leva um chef com a bagagem de restaurantes com estrela Michelin, habituado aos meandros da alta gastronomia dentro e fora do país, a querer despir a farda do conceptualismo? A resposta encontra-se no balcão e no olhar de quem decidiu regressar ao solo. Cansado dos pratos que se explicam em sussurros teóricos e das experiências que servem para um dia especial, mas raras vezes criam o hábito de voltar, o chef juntou-se aos proprietários para edificar um conceito oposto – o regresso ao mais primitivo, ao mais térreo, ao elemento primordial: o fogo. 

Apresentado o arguido, é hora de inspecionar o local do crime. Acusação: a de desmistificar a alta cozinha e devolvê-la à verdade da brasa e da grelha. Na sala, os tons castanhos e o calor do cabedal antecipam a atmosfera, mas o verdadeiro espetáculo acontece à vista de todos. As grandes grelhas operam como o palco principal de uma peça onde chamas e o estalar da lenha acompanham cada momento da refeição. Vê-se o manuseio preciso das carnes, a paciência do calor e o respeito absoluto pelo produto nacional e pela sua sazonalidade.

Avancemos para as provas materiais. Entraram a depor as entradas: 

Começámos pela tortilla trufada com lascas de presunto. Rica, densa e com um conforto que prepara o palato para o que se avizinha. Seguiu-se o tártaro de vaca velha, servido sobre tostas corajosamente embebidas em banha (e sim, funciona de forma surpreendente). O contraste entre a gordura nobre e as notas ácidas conferidas pelas alcaparras e pelo kimchi cria um equilíbrio arrojado. Pode não ser para todos os paladares, mas este tribunal considera-o uma experiência a não colocar de lado. 

Nos pratos principais, a brasa mostrou a sua verdadeira autoridade. O asado de tira, no ponto exato de suculência, fez-se acompanhar pelo já famoso arroz de enchidos no forno. Uma prova exata da missão do restaurante: uma homenagem profunda e reconfortante aos sabores tipicamente portugueses. Ao lado, um puré de batata trufado, divinal na textura, cremoso e envolvente no sabor.

Para fechar o caso com chave de ouro, a nova tarte de limão merengada. Um remate de acidez e doçura na medida certa, leveza e suavidade do merengue no ponto. 

Em depoimento, fica claro que o Faminto não quer ser apenas mais um restaurante na vaga gastronómica de Lisboa. Quer ser o refúgio onde a técnica refinada serve a simplicidade e onde o fogo deixa de ser apenas um método de confeção para passar a ser a própria identidade do espaço.

Como veredito final, o tribunal declara que o arguido é culpado de redefinir o conforto à mesa na capital, desnudando a sofisticação e substituindo a cenografia pela força crua do produto e da chama.

Vemo-nos no próximo caso.

Artigo por Catarina Ogando
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