Há uma pressão silenciosa que acompanha a vida adulta desde o primeiro momento em que alguém te pergunta o que queres ser quando cresceres. A pergunta parece inocente. Mas carrega dentro dela uma exigência enorme: a de que deves saber. A de que a vida tem uma direção clara, um destino definido, um propósito que basta encontrar para que tudo faça sentido.
E então passamos anos, alguns de nós décadas, à procura dessa resposta. Lemos livros de autoconhecimento. Fazemos terapia. Preenchemos questionários de personalidade que nos dizem que somos INFJs ou eneagrama 4 ou que a nossa linguagem do amor é qualidade de tempo. Tentamos descobrir o que queremos com a urgência de quem perdeu algo e está a vasculhar os bolsos.
O que ninguém nos diz, ou pelo menos não com a clareza que merecia, é que descobrir o que não queres é metade do caminho. Talvez mais.
Penso nisso quando olho para as coisas que aprendi sobre mim própria não nos momentos de clareza e revelação, mas nos momentos em que disse não. Nos empregos que aceitei e que me foram ensinando, pouco a pouco, o tipo de trabalho que me faz murchar. Nas relações que durei mais tempo do que devia precisamente porque ainda não sabia nomear o que me incomodava, e quando finalmente nomeei percebi que o desconforto era informação. Era um mapa ao contrário, mas era um mapa.
Há uma ideia muito instalada de que só conta o movimento em direção a algo. Que o que nos define são as coisas que escolhemos, as portas que abrimos, os sins que dissemos com convicção. E há verdade nisso, claro. Mas há igualmente verdade no não. No “isto não sou eu”. No “aqui não consigo respirar”. No “saí dessa relação e senti alívio antes de sentir tristeza, e esse alívio foi a coisa mais honesta que o meu corpo me disse em meses”.
O alívio é sempre informação. Guardemo-lo.
A cultura da positividade, que domina tudo desde as legendas do Instagram às palestras de desenvolvimento pessoal, tem uma tendência para tratar o não como falha. Como se recusar algo fosse sempre retrocesso, como se o caminho correto fosse sempre expansão, mais, maior, mais corajoso. Mas há coragens que só se parecem com coragem depois, e uma delas é a de reconhecer que seguiste uma direção que não era tua e ter a honestidade de mudar de rota mesmo quando já tinhas investido muito naquela estrada.
Sunk cost. Os economistas têm um nome para isso. A tendência de continuar numa coisa só porque já lá pusemos tempo, dinheiro, energia, expectativa. Continuamos em empregos que nos drenam porque estudámos cinco anos para aquilo. Continuamos em relações que nos diminuem porque já passámos três anos juntos. Continuamos em versões de nós próprios que já ficaram pequenas porque foi muito trabalho chegar até aqui e mudar parece um desperdício.
Não é. É atualização. É a única forma honesta de crescer.
Descobrir o que não queres pede uma certa tolerância ao vazio que não nos ensinaram a ter. Quando se diz não a uma coisa sem ter ainda um sim para oferecer em troca, fica um espaço que desconforta. A sociedade não é muito boa a sentar-se nesse espaço com calma. Pergunta logo: então o que é que vais fazer? Então qual é o plano? Então para onde vais? Como se o espaço entre o que não queremos e o que queremos fosse um problema a resolver com urgência em vez de um lugar legítimo onde estar temporariamente.
Às vezes o não precisa de existir sozinho durante um bocado. Para ganhar forma. Para que o corpo perceba o que significa não ter aquele peso específico. Para que a cabeça descanse da gestão de algo que nunca foi suposto ser nosso.
Tenho uma teoria, não científica mas consistente com tudo o que observei em mim e nas pessoas à minha volta: a maioria de nós sabe muito antes do que admite. Sabe que aquela relação acabou antes de a terminar. Sabe que aquele trabalho não é o lugar certo antes de pedir a demissão. Sabe que aquela versão de si própria ficou pequena antes de ter coragem de a largar. O problema não é o conhecimento. É o tempo que demora a agir sobre ele.
E esse tempo não é sempre desperdiçado. Às vezes é necessário. Às vezes precisamos de ter a certeza do não antes de conseguirmos agir sobre ele, e ter a certeza pede tempo e experiência e dor suficiente para que a dúvida já não caiba.
O que quero dizer com tudo isto é simples, embora não seja fácil: se neste momento da tua vida a única coisa que sabes é o que não queres, isso é suficiente para começar. Não é pouco. É, na verdade, uma informação extraordinariamente valiosa sobre quem és e sobre o que precisas.
A clareza não tem de chegar toda de uma vez, em forma de epifania ou de vocação ou de propósito sublinhado a marcador. Pode chegar aos bocadinhos, em forma de não. Deste não aprendo isto. Deste outro, aquilo. E quando olhares para trás daqui a alguns anos, vais perceber que os nãos formaram uma silhueta. Que a silhueta és tu.
Descobre o que não queres. Com cuidado, com curiosidade, sem pressa. É um dos trabalhos mais sérios que alguém pode fazer sobre si próprio.
E é completamente teu.
#GlitterUpYourLife