A melatonina é uma hormona produzida naturalmente pelo organismo e desempenha um papel fundamental na regulação do ritmo sono–vigília. Em Portugal, os suplementos alimentares à base de melatonina tornaram-se um recurso banalizado em idade pediátrica para quando as crianças não dormem bem, apesar de não existir indicação terapêutica formal para a maioria das situações. O Melamil® é apenas um dos nomes comerciais sob os quais esta hormona é comercializada, muitas vezes com uma linguagem que sugere especificidade pediátrica e segurança acrescida, algo que não é sustentado pela evidência científica.
A melatonina administrada externamente não é um sedativo clássico. Atua como um sinalizador do relógio biológico e pode facilitar o início do sono quando esse relógio está desfasado. Fora desse contexto, o seu efeito é limitado. Não resolve despertares noturnos, não corrige rotinas desorganizadas, não anula o impacto dos ecrãs à noite nem trata ansiedade, dificuldades parentais ou problemas familiares. Ainda assim, é frequentemente usada como se pudesse compensar tudo isto, funcionando mais como um calmante simbólico para adultos exaustos do que como um tratamento dirigido à criança.
A melatonina pode ser benéfica em contextos muito específicos como em crianças com perturbações do neurodesenvolvimento, atraso de fase do sono ou algumas condições neurológicas. Mesmo nestas situações, o efeito tende a ser limitado e dependente da dose, do horário da administração e da associação a outras medidas terapêuticas. Em crianças cujas dificuldades em adormecer estão associadas a hábitos de sono inadequados, ansiedade ou rotinas inconsistentes, o benefício é geralmente reduzido ou inexistente. Nestes casos, a melatonina acaba por ser utilizada como uma solução rápida para um problema que não é primariamente hormonal e não é, assim, resolvido.
Apesar da perceção generalizada de segurança, a melatonina não é uma substância inócua. Sendo uma hormona, a sua administração interfere num sistema endócrino em desenvolvimento. Os efeitos adversos incluem sonolência diurna, cefaleias, queixas gastrointestinais, irritabilidade, alterações do humor e sonhos vívidos. Mais preocupante ainda é a capacidade da melatonina mascarar problemas reais como ansiedade, perturbações emocionais, dificuldades familiares, dor crónica ou problemas respiratórios do sono, atrasando diagnósticos e intervenções adequadas.
Acresce que a maioria destes produtos é classificada como suplemento alimentar, não sujeitos ao controlo de qualidade e rigor farmacológico dos medicamentos. A variabilidade da dose real ingerida e a inconsistência entre os lotes são problemas relevantes quando se administra uma hormona a crianças, muitas vezes de forma prolongada e sem supervisão clínica regular.
O aumento do consumo de melatonina em idade pediátrica em Portugal deve ser enquadrado nas mudanças mais amplas no contexto familiar e social, nomeadamente a dificuldade em estabelecer rotinas previsíveis, o aumento do tempo de ecrãs antes de dormir, horários irregulares e níveis elevados de stress. A melatonina surge como uma resposta simples a um problema complexo, reforçada por uma mensagem comercial que tranquiliza os adultos mas pouco questiona a real necessidade da criança.
Do ponto de vista pediátrico, continuar a normalizar o uso rotineiro de melatonina em crianças saudáveis é um erro. A abordagem das dificuldades de sono deve começar sempre por uma avaliação estruturada da criança e do contexto familiar. A intervenção comportamental, a reorganização das rotinas e o apoio parental continuam a ser as melhores estratégias. A melatonina pode ter lugar em situações selecionadas, por períodos limitados e com objetivos claros. Usá-la como resposta padrão à insónia infantil é, na maioria das vezes, tratar o sintoma e ignorar o problema.
Artigo Por Dra. Clara Gomes, Pediatra @draclaragomespediatra