Fizemos uma pergunta simples à nossa comunidade no WhatsApp: vão sempre à mesma manicure? Das 18 respostas, 15 disseram que sim, sempre a mesma. Uma foi mais livre de espírito, vai onde calhar. E duas confessaram que simplesmente não fazem as unhas. Números pequenos, mas que dizem muito sobre nós.
Porque é que a fidelidade à manicure é tão maior do que a fidelidade a quase tudo o resto que consumimos? Trocamos de cabeleireiro por um preço mais baixo, de ginásio por uma app melhor, até de dentista sem grande peso na consciência. Mas a manicure é outra coisa. É talvez o último reduto de um ritual que ainda é inteiramente nosso, marcado no calendário como se fosse importante, porque é.
Há quem diga que é confiança técnica: encontrar alguém que não risca o verniz, que sabe a forma exata que queremos para a unha, que não nos corta a cutícula demasiado fundo. E é verdade, a técnica pesa. Mas suspeito que o que realmente nos prende é outra coisa, mais silenciosa. É aquela meia hora em que ninguém nos pede nada. Em que estamos sentadas, as mãos entregues a outra pessoa, e podemos simplesmente parar. Falar do que quisermos, ou não falar de nada. Há manicures que já sabem da nossa vida melhor do que a nossa terapeuta, e outras com quem o silêncio é tão confortável como uma manta no inverno.
Talvez seja por isso que trocar pareça uma pequena traição. Não é só o risco de umas unhas mal feitas, é o desconforto de ter de recomeçar uma relação do zero, explicar outra vez o que gostamos, aturar a estranheza de mãos novas a segurar as nossas. Há um investimento emocional ali que não cabe só na palavra “serviço”.
E depois há as duas que não vão a lado nenhum. Não é preguiça, muitas vezes é o oposto: é recusar entrar numa rotina que sabem que se vai tornar sagrada, é preferir gerir o tempo, o dinheiro ou simplesmente a paciência de outra forma. Também isso é uma escolha válida, talvez até mais consciente do que a nossa fidelidade cega.
No fim de contas, esta pequena sondagem entre nós diz talvez menos sobre unhas e mais sobre o que ainda guardamos como nosso: os pequenos rituais que recusamos partilhar ou negociar, os cantos de rotina onde ainda mandamos nós.
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