Há uma fase em que o corpo parece decidir mudar as regras do jogo sem nos avisar. A menstruação, até então mais ou menos previsível, começa a improvisar. O sono deixa de colaborar. A paciência encurta. E aquela palavra que estava mesmo na ponta da língua desaparece no momento mais inoportuno.
É fácil culpar o stress, o cansaço ou uma semana particularmente caótica. Mas estes podem ser os primeiros sinais da perimenopausa. Sim, a menopausa ainda não chegou. Mas o corpo já começou a preparar a mudança.
A perimenopausa é a fase de transição que antecede a menopausa. Pode começar vários anos antes da última menstruação, geralmente a partir dos 40 anos.
Nesta fase, os ovários continuam a funcionar, mas a produção hormonal torna-se menos regular. As alterações variam muito de mulher para mulher e nem sempre são imediatamente associadas à perimenopausa.
Um dos primeiros sinais costuma ser a mudança do ciclo menstrual. A menstruação pode surgir mais cedo ou mais tarde. Pode tornar-se mais abundante ou mais escassa. E pode perder a regularidade habitual.
Mas as mudanças não se ficam pelo ciclo menstrual. Os afrontamentos são um dos sintomas mais conhecidos, mas estão longe de ser os únicos. Podem surgir suores noturnos, alterações do sono e um cansaço que parece não passar. Algumas mulheres sentem maior dificuldade de concentração. Outras referem falhas de memória ou “nevoeiro mental”, como se o cérebro tivesse demasiadas janelas abertas. A secura vaginal, a diminuição do desejo, o desconforto nas relações sexuais, as dores articulares e as alterações na composição corporal também são frequentes.
Nem todas as mulheres têm os mesmos sintomas, nem os sentem com a mesma intensidade. Para algumas, esta fase passa quase despercebida. Para outras, interfere claramente com o sono, o trabalho, a vida familiar, a sexualidade e o bem-estar.
E não, não é “coisa da sua cabeça”.
Ainda assim, nem tudo é culpa das hormonas, apesar de serem suspeitas habituais nesta fase. Alterações da função tiroideia, anemia, défices vitamínicos, problemas do sono ou períodos de maior stress podem provocar sintomas semelhantes.
Quando as mudanças persistem ou começam a afetar o dia a dia, é importante procurar uma avaliação médica. O objetivo é perceber o que se passa e encontrar a solução mais adequada para cada mulher.
Há ainda um ponto importante: durante a perimenopausa continua a ser possível engravidar. A ovulação pode tornar-se irregular, mas não desaparece de um dia para o outro. A contraceção continua, por isso, a ser necessária. Deve ser escolhida de acordo com a idade, os sintomas e o estado de saúde de cada mulher. A terapêutica hormonal da menopausa pode ajudar a controlar os sintomas, mas não evita uma gravidez.
A boa notícia é que não precisamos de aceitar esta fase como um castigo inevitável.
A atividade física regular, incluindo treino de força, pode ajudar. Tal como uma alimentação equilibrada, a redução do consumo de álcool, a proteção do sono e a atenção à saúde emocional.
Quando os sintomas são mais intensos, existem tratamentos eficazes. A terapêutica hormonal pode ser uma opção para muitas mulheres, incluindo durante a perimenopausa, desde que os benefícios e os riscos sejam avaliados individualmente.
Existem também alternativas não hormonais e tratamentos locais para os sintomas vaginais e urinários.
A perimenopausa não é uma doença, mas é uma fase real. Conhecer os sinais permite-nos deixar de pensar “o que se passa comigo?” e começar a procurar as respostas certas.
Porque sentir-se bem não tem prazo de validade.
Artigo Por Sofia Figueiredo
Assistente Hospitalar Graduada de Ginecologia-Obstetrícia
Hospital da Luz, Lisboa
Clínica Mulher, Lisboa