Há uns anos, ficou viral um vídeo em que pediam a uma série de pessoas que corressem, atirassem uma bola, lutassem… like a girl (como uma miúda). O resultado eram socos pouco certeiros, muita preocupação com o cabelo e zero coordenação motora no geral. A cereja no topo do bolo era chamar depois as ditas miúdas e pedir-lhes exatamente a mesma coisa… a postura delas não podia ser mais distinta: os murros no ar eram aguerridos, a corrida era enérgica, a bola imaginária voava-lhes das mãos. Afinal, porque é que fazer as coisas “como uma miúda” havia de ser um insulto?
Anos mais tarde, parecemos estar num ponto já distante neste espetro. Agora, fazer coisas “like a girl”, ser-se “girlie”, ser uma “girls’ girl” e proteger a “girlhood” não só já deixou de ser humilhante, como também se reveste de um sentido de empoderamento assumido. Aquilo que antes deixava o sexo feminino mais inibido e relutante em aceitar e reivindicar como um gosto, traço ou valor estimado, agora é mais frequentemente elogioso; algo que cultiva em si e que valoriza nas amigas.
O curioso é que isto passa por uma série de símbolos e hábitos, que atravessam objetos, marcas, peças de roupa e paletas de cores. E é sobre isso que falamos hoje.
A cor rosa talvez seja o exemplo mais fácil; quantas de nós não se sentiram reticentes em afirmar ser a sua cor favorita, com vontade de evitar estereótipos ou ser vistas como demasiado femininas? Não sou uma criança, claro que já não gosto de rosa (brincar com Barbies e já não precisar de cadeirinha no banco de trás ou já não ter dentes de leite era praticamente idêntico para decretar a chegada à puberdade). Já podíamos antecipar o que se seguiria, se disséssemos preferir um azul ou um verde: “ahh, tu és diferente das outras raparigas”, com selo de aprovação de qualidade ‘special edition’ e arestas vulgares e básicas bem limadas.
Hm… calma: isso era suposto ser um elogio, Romeu?
Bem, se era, já não é. A internet inflama-se com o contraste entre as “pick me” e as “girls’ girl” e este segundo grupo está a mexer com o status quo. O exemplo mais evidente talvez seja a pink renaissance. O rosa ressurge como pano de fundo de um oásis de paz, capaz de irradiar uma sensação de nostalgia típica de quem volta para algo que a fez feliz – até deixar de fazer. Sobretudo, esta aura mais feminina está também muito associada a tudo o que seja whimsical: algo criativo, que romantize o quotidiano, excêntrico q.b. e cheio de fantasia. E é sem dúvida precioso o sentimento de conexão e pertença que brota de uma tendência online, onde, mais frequentemente, é fácil surgir o sentimento oposto.
Não que tudo sejam rosas, claro. Porque, por exemplo, os peluches também voltam a enfeitar as camas, ao lado das almofadas coloridas, mas não é qualquer uma que quer ou pode dar 60 euros por um JellyCat, a marca de eleição do momento (não só pelos peluches em si, mas também pela ida à loja, que evoca uma pastelaria repleta de iguarias). É previsível e natural que as marcas se adaptem ao mercado, reconhecendo o florescimento da sheconomy: usam estratégias mais focadas no bem-estar, palavras inerentes ao universo girlie, afirmações mais autênticas e desenvolvem amplamente o sentido de comunidade. Sim, isto inclui as publicidades que já deves ter visto por parte de empresas mais institucionais – leia-se “sem-tanta-propensão-para-graça-natural” (sem ofensa, malta) – a falar sobre girl math.
Vêm em peso as bandoletes coloridas para prender o cabelo no sítio durante a skincare, voltam as pulseiras da amizade, os pendentes nas bolsas e malas, os autocolantes nos cadernos e livros, as flores (e natureza, no geral) por todo o lado, os brilhos para adornar, as saias menos plissadas e mais fluídas, as rendas e sedas, os conjuntos coloridos para o ginásio e as aulas de pilates… o ponto principal é cultivar beleza e espontaneidade no dia a dia, por oposição a tendências anteriores, que marcaram um modus operandi mais focado na hussle culture e no estilo de vida girlboss-hiper-independente, com ligações inegáveis ao burnout e ao pouco espaço para a criatividade. Porque sim, outro grande ponto é priorizar a paz e saúde mental e, ainda que isso não se faça com flores e cores, é pedra assente que rodearmo-nos daquilo de que gostamos dá outra luz à vida.
E essa é justamente a evidente vantagem desta tendência: apostar no whimsical, acrescentar um brilho, romantizar o dia a dia, brincar com a criatividade e, pelo meio, perceber que não precisamos de estar sempre a ser produtivas, que não é lá muito boa ideia esperar que nos comportemos como máquinas e que o belo também é importante. Inevitavelmente, como em tudo na vida, aliás, acabam por fomentar-se várias amizades femininas no processo, porque, se é verdade que tudo precisa de cuidado para durar, aqui a atenção está precisamente nos detalhes e o cuidado é minuciosamente imprescindível.
Porém, há quem diga que é dececionante e o absoluto contrário de empoderador ver mulheres deliberadamente infantilizar-se (acompanhaste a polémica dos vestidos da Olivia Rodrigo no videoclipe “Drop Dead”?). Afinal, se é tudo tão soft e cutesy, como vão ter espinha para lidar com tudo o que nesta vida não é rosas e corações? Além disso, a verdade é que reagir e subscrever a esta tendência, por mera oposição ao que é esperado, também é uma forma de controlo da estética feminina. Até porque já sabemos que há uma relação sociológica inegável entre o incentivo ao consumo feminino e o afastamento das mulheres do espaço político; a moda e as tendências nunca refletem apenas estética, mas também política, economia e o momento cultural que se vive. Mas isso já é tema para outro artigo…
O que parece ser consensual, é que, numa sociedade em que há uma inclinação comum para ler e ouvir mais autores e cantores masculinos (e dar-lhes o devido reconhecimento), é um ato de rebeldia afirmar gostar de coisas tipicamente femininas, frequentemente vistas como frívolas ou fracas – e, sobretudo, ver agora um elogio em fazer coisas like a girl. Afinal, não deveria essa espontaneidade autêntica tipicamente infantil ser algo que deveríamos cultivar? Ou aquilo que dizem de manter a nossa inner child viva termina quando o filme inspirador no cinema chega ao fim?
E tu, que achas? É uma era que, como todas, terá o seu declínio ou é um momento decisivo de empoderamento livre que veio para ficar?
#GlitterUpYourLife