Verão, lipedema, celulite e rugas: o que é mito e o que é realidade?

Todos os verões acontece o mesmo. As pernas passam a estar mais expostas, a pele ganha protagonismo e surgem as mesmas dúvidas: será que a celulite piorou? Porque é que as pernas estão mais inchadas? As rugas parecem mais marcadas. E será que isto é apenas do calor?

Enquanto cirurgião plástico, estas são algumas das perguntas que mais ouço nesta altura do ano. E a verdade é que nem tudo aquilo que vemos ao espelho corresponde a uma alteração real do nosso corpo.

O verão não provoca celulite, não causa lipedema e não acelera subitamente o envelhecimento da pele. Mas pode tornar estas alterações mais evidentes. E isso faz toda a diferença na forma como cada pessoa se sente.

A celulite não é uma doença

É provavelmente a alteração estética mais comum na mulher e continua a ser uma das mais mal compreendidas.
A celulite resulta da forma como a gordura, o tecido conjuntivo e a pele se organizam. Existe uma importante componente genética e hormonal, razão pela qual pode surgir tanto em mulheres muito magras como em mulheres com excesso de peso.
Ao longo dos anos tenho visto muitas pacientes chegarem à consulta depois de experimentarem dezenas de cremes e tratamentos que prometiam eliminar a celulite. A realidade é bastante menos simples.

Não existe um tratamento milagroso. Existem, isso sim, estratégias que permitem melhorar significativamente o aspeto da pele quando são corretamente indicadas e adaptadas a cada caso. É precisamente aqui que uma avaliação médica faz diferença.

Lipedema: quando não é apenas gordura localizada

Este continua a ser um diagnóstico frequentemente ignorado.
Muitas mulheres passam anos convencidas de que têm apenas ‘pernas grossas’ ou que não conseguem emagrecer porque não fazem exercício suficiente. Na realidade, algumas sofrem de lipedema, uma doença crónica do tecido adiposo que afeta quase exclusivamente mulheres.

Os sinais são relativamente característicos: aumento desproporcional do volume das pernas, dor ao toque, sensação de peso, hematomas frequentes e dificuldade em reduzir o volume, mesmo após perda significativa de peso.

O diagnóstico precoce continua a ser a melhor forma de controlar a evolução da doença. Nem todas as doentes necessitam de cirurgia, mas praticamente todas beneficiam de um acompanhamento adequado e de um plano terapêutico individualizado.

E as rugas?

Se há um verdadeiro inimigo da pele durante o verão, esse chama-se radiação ultravioleta.
Grande parte das rugas que associamos ao envelhecimento resulta, na verdade, de anos de exposição solar acumulada. É aquilo a que chamamos fotoenvelhecimento.

A boa notícia é que este é um dos poucos fatores sobre os quais podemos atuar diariamente. O uso consistente de protetor solar continua a ser, de longe, o melhor tratamento antienvelhecimento que conhecemos.


Cuidar da imagem começa por compreender o corpo

Vivemos numa época em que as redes sociais oferecem respostas rápidas para praticamente tudo. Infelizmente, o corpo humano raramente funciona dessa forma.

Celulite, lipedema e envelhecimento cutâneo são situações completamente diferentes. Têm causas diferentes, evoluções diferentes e, naturalmente, tratamentos diferentes.

Enquanto médico, acredito que a medicina estética deve começar sempre por um diagnóstico correto. Só depois faz sentido falar em tratamentos. Quando compreendemos verdadeiramente o problema, deixamos de procurar soluções milagrosas e começamos a procurar soluções eficazes.

Porque, no fim de contas, o objetivo nunca deve ser parecer outra pessoa. Deve ser envelhecer melhor, sentir-se bem no próprio corpo e tomar decisões informadas, sem modas nem falsas promessas.

Artigo por Leandro Nobre Azevedo
Cirurgião Plástico @leandroazevedocirurgiaplastica