O desfralde e a pressão das férias

Todos os verões acontece o mesmo. As férias aproximam-se e muitos pais pensam ou ouvem de quem os rodeia: “Agora que vão estar de férias, talvez seja a altura ideal para tirar a fralda.” Quando as crianças atingem uma meta qualquer imaginária por volta dos dois anos, começa a pressão para o desfralde, como se nascêssemos com esse marco na agenda. No período das férias, as conversas multiplicam-se, seja por parte dos familiares, dos outros amigos que têm filhos e por vezes até das educadoras. Justificam-no com o facto de haver mais tempo, menos pressa e menos horários. Mas será mesmo a melhor opção?

A resposta dos especialistas é: nem sempre.

O desfralde não depende tanto da disponibilidade dos pais, mas sim da prontidão da criança. Não se treina, como tantas vezes ouvimos. É um processo neuropsicofisiológico que envolve a autonomia da criança e a sua maturidade neurológica, fisiológica, emocional, cognitiva e motora. É indispensável que a criança consiga reconhecer quando tem vontade de fazer chichi ou cocó, comunicar essa necessidade e mostrar interesse em usar o bacio ou a sanita. Sem estes sinais, o processo pode tornar-se frustrante para toda a família.

Além disso, as férias são, por natureza, um período de mudanças. Há viagens, passeios, horários diferentes, dias de praia, refeições fora de casa e, muitas vezes, camas e casas diferentes. Toda esta quebra na rotina pode dificultar a aprendizagem de um hábito novo, que precisa precisamente do contrário: consistência e previsibilidade.

Outro aspeto importante é pensar no que acontece depois. Se o desfralde começa nas férias, será possível manter exatamente a mesma rotina quando a criança regressar à creche ou ao jardim de infância? A continuidade é essencial para evitar retrocessos.

Claro que há exceções. Se a criança já demonstra todos os sinais de que está preparada e vai passar umas férias tranquilas, sem grandes alterações na rotina, este pode ser um bom momento para iniciar o processo. Mas a decisão deve partir da criança, e não apenas do calendário.

No final, o mais importante é lembrar que o desfralde não é uma corrida. Cada criança tem o seu ritmo e respeitá-lo é a melhor forma de transformar esta etapa num processo positivo, sem pressão nem ansiedade para pais e filhos.