Há decisões na vida que sabemos, antes mesmo de as tomar, que vão magoar alguém. E acho que essa é uma das partes mais difíceis de crescer.
Porque enquanto somos mais novos, temos muitas vezes a ideia de que as decisões certas são aquelas que deixam toda a gente feliz. Tentamos explicar, justificar, encontrar a solução perfeita, aquela em que ninguém fica chateado, ninguém se sente posto de lado e toda a gente acaba por compreender.
Só que essa solução perfeita não existe. E quanto mais avançamos na vida, mais percebemos isso. Principalmente nos 20’s.
É nesta fase que começamos, de facto, a construir a nossa vida. Estamos a perceber que carreira queremos, onde queremos viver, que pessoas queremos ter por perto, que relações queremos manter, que tipo de vida queremos ter.
E, inevitavelmente, algumas dessas escolhas vão entrar em conflito com aquilo que outras pessoas esperavam de nós.
Pode ser uma decisão profissional. Pode ser mudar de emprego, mudar de área, recusar uma oportunidade, aceitar outra, escolher um caminho que ninguém à nossa volta percebe.
Pode ser uma decisão pessoal. Afastarmo-nos de alguém, terminar uma relação, mudar de cidade, escolher passar mais tempo com determinadas pessoas, dizer não a planos que antes aceitávamos sempre.
E às vezes sabemos perfeitamente que alguém vai ficar magoado.
E é aí que começa a culpa.
“Será que devia fazer isto?”
“Será que estou a ser egoísta?”
“Será que devia pensar mais na outra pessoa?”
“Será que estou a tomar a decisão certa?”
E, sinceramente, acho que é aqui que temos de aprender uma das coisas mais difíceis da vida adulta: Não vamos conseguir agradar a toda a gente.
E isto não significa que devemos fazer tudo o que nos apetece sem pensar em ninguém. Muito pelo contrário.
Acho que há uma diferença enorme entre tomar uma decisão a pensar apenas em nós e tomar uma decisão que sabemos que pode magoar alguém, mas que continua a ser necessária para a nossa vida. Podemos ter consideração pelos sentimentos dos outros sem colocarmos constantemente as necessidades deles à frente das nossas.
E esta distinção, para mim, é fundamental.
Porque também acredito que a forma como tomamos determinadas decisões diz muito sobre nós.
Se sabemos que uma decisão vai ter impacto noutra pessoa, podemos tentar minimizar os destroços.Podemos conversar, explicar, ouvir. Podemos ter cuidado com as palavras, dar espaço para a outra pessoa ficar magoada.
Mas não podemos controlar a reação dela.
E talvez seja isso que mais custa. Podemos fazer tudo “certo” e, mesmo assim, alguém pode não compreender. Pode ficar desiludido, triste, pode até ficar zangado connosco.
E temos que aprender a aceitar isso.
Porque, no fundo, também temos direito a tomar decisões que os outros não entendem.
Acho que uma das coisas que mais nos pode ajudar nestas situações é tentar nos colocar no lugar do outro. Se fosse comigo, como é que eu me sentiria? Se fosse eu a receber esta notícia, ficaria magoada?
Provavelmente sim.
E isso não significa automaticamente que a decisão esteja errada. Da mesma forma, também acho importante que a outra pessoa consiga fazer o mesmo exercício. Se estivesse no meu lugar, com a minha vida, as minhas circunstâncias, os meus objetivos e os meus sentimentos, será que tomaria uma decisão diferente?
Se calhar não.
E talvez seja aí que conseguimos encontrar algum equilíbrio. Eu consigo perceber que estás magoado e, ao mesmo tempo, continuar a acreditar que esta era a decisão certa para mim.
As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
E acho que esta é uma das maiores aprendizagens dos 20’s: perceber que crescer também significa deixar algumas coisas para trás. Nem sempre porque deixaram de ser importantes. Às vezes simplesmente porque já não cabem na vida que estamos a construir.
E isso pode ser muito difícil.
Porque há pessoas que fizeram parte de fases muito importantes da nossa vida. Há trabalhos que nos ensinaram imenso. Há lugares onde fomos felizes. Há relações que significaram muito. Mas aquilo que foi certo para nós numa determinada fase não tem obrigatoriamente de continuar a ser certo para sempre. E não acho que devemos sentir culpa por isso.
Podemos agradecer o que aquela pessoa, aquele lugar ou aquela experiência nos deu e, ainda assim, perceber que precisamos de seguir noutra direção. No fundo, acho que maturidade também é isto.
É perceber que as nossas decisões têm consequências, assumir essas consequências e tentar lidar com elas da forma mais humana possível. Não fugir da culpa, mas também não deixar que a culpa decida por nós. Porque se passarmos a vida inteira a tomar decisões para que ninguém fique magoado, eventualmente vamos acabar a magoar-nos a nós próprios. E eu não quero isso.
Quero conseguir tomar as minhas decisões, mesmo sabendo que nem toda a gente vai gostar delas. Quero ter sensibilidade suficiente para perceber quem posso magoar pelo caminho, mas também coragem suficiente para continuar quando sei que é o caminho que quero seguir. Porque, no final, não acho que a nossa liberdade esteja em conseguir fazer toda a gente feliz. Acho que a verdadeira liberdade está em conseguirmos escolher a nossa vida sem precisarmos da aprovação de toda a gente.
Artigo por Carolina Silva
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