Alguém já te disse isto? Para de pensar tanto. Dito assim, com aquela leveza de quem acha que o problema é simples e a solução está apenas a uma decisão de distância. Como se o overthinking fosse um botão. Como se eu não soubesse, melhor do que ninguém, que estou a pensar de mais. Como se o problema não fosse precisamente esse, que não consigo parar.
Sou do tipo que ensaia conversas que nunca vão acontecer. Que relê uma mensagem enviada às duas da tarde e às onze da noite ainda está a perguntar-se se o tom estava certo. Que acorda a meio da noite com uma memória de qualquer coisa que disse e que provavelmente ninguém mais recorda. Que planeia o pior cenário possível não por pessimismo mas por uma espécie de superstição ao contrário: se eu já pensei nisto, já não me pode apanhar de surpresa.
Claro que pode sempre apanhar de surpresa. O overthinking não protege nada. Só cansa. A questão é que o cérebro que pensa de mais não é um cérebro preguiçoso nem fraco. É, regra geral, um cérebro que em algum momento aprendeu que pensar muito era uma forma de controlar o que não podia ser controlado. Que se eu antecipar tudo, se eu preparar resposta para todos os cenários, se eu nunca for apanhada desprevenida, então estou segura. É uma lógica que faz sentido quando és criança num ambiente imprevisível. Faz muito menos sentido quando tens trinta anos e estás a perder uma hora de sono por causa de um email que pode ou não ter ficado mal escrito.
Então o que é que funciona, de facto?
A primeira coisa, e a mais difícil, é perceber que pensar no problema não é o mesmo que resolver o problema. Há uma diferença entre processar algo e ruminar sobre isso. Processar tem movimento, chega a algum sítio, transforma-se em ação ou em aceitação. Ruminar é circular. É a mesma volta dada quarenta vezes sem sair do lugar. Quando percebes que estás na volta número vinte e três e que não surgiu nenhuma informação nova, esse é o sinal.
A segunda coisa é dar ao pensamento um prazo. Soa estranho mas funciona: dizes a ti própria, tens dez minutos para pensar nisto, e passados os dez minutos acabou. Aprendi este truque num dos virais livros da série Off Campus. Não porque o problema desapareceu, mas porque estabeleceste um limite entre pensar e existir.
A terceira coisa é perceber que o corpo sabe sair da cabeça quando a cabeça não consegue sair de si mesma. Caminhar, cozinhar qualquer coisa com as mãos, tomar um duche frio, dobrar roupa. Qualquer tarefa que seja suficientemente concreta para ocupar a atenção sem exigir que resolvas o mistério da existência em simultâneo. O corpo é muitas vezes o atalho mais rápido para calar o barulho de dentro.
E depois há uma coisa que ninguém quer ouvir mas que eu digo na mesma: às vezes é preciso ajuda a sério. Terapia, não como último recurso de quem já não aguenta mais, mas como ferramenta de quem percebe que os padrões de pensamento que tem não estão a servir a vida que quer ter. O overthinking crónico tem quase sempre raízes que não se arrancam só com força de vontade e apps de meditação.
Não vou dizer para parares de pensar tanto. Mas talvez possas, hoje, pensar um bocadinho menos. E ver o que acontece no espaço que fica.
#GlitterUpYourLife