Crescer com irmãos é aprender a amar no meio do caos

Tenho dois irmãos. Sou a mais nova, o que significa que cresci ao mesmo tempo protegida e profundamente injustiçada, pelo menos na minha cabeça de criança, cada vez que o meu irmão me infernizava a vida.

Crescer com irmãos é uma experiência muito específica. É aprender a discutir por causas completamente absurdas e, cinco minutos depois, estar a rir como se nada tivesse acontecido. É ter alguém que conhece a versão mais insuportável de nós e que, ainda assim, continua lá. É também perceber, já em adulta, que metade das histórias que contamos sobre a infância só têm graça porque eles estavam lá connosco.

Durante anos achei que irmãos eram só uma companhia automática para férias, natais barulhentos e discussões no banco de trás do carro. Só mais tarde percebi que os irmãos acabam por ser testemunhas permanentes da nossa vida. Conhecem a nossa família de dentro, sabem de onde vimos, lembram-se de versões de nós que já esquecemos completamente.

Gostava de dar um irmão ao meu filho. É um pensamento comum quando se tem o primeiro filho. Pela cumplicidade, pelas memórias futuras, pela ideia de ele nunca atravessar a vida completamente sozinho naquele lugar específico que só os irmãos ocupam. Mas depois existe a outra parte da verdade.

A parte em que ter filhos é maravilhoso, mas também cansativo, exigente e transformador. A parte em que às vezes não sei se quero voltar ao início outra vez. Fraldas, noites mal dormidas, gravidez, logística emocional, o equilíbrio impossível entre maternidade e identidade própria. E sinto que muitas mulheres vivem esta dúvida em silêncio, quase como se fosse suposto saber automaticamente. Como se desejar dar um irmão a um filho tivesse obrigatoriamente de significar querer outro bebé. E a verdade é que nem sempre significa. Às vezes significa apenas querer garantir companhia emocional para alguém que amamos muito.

Mas depois penso noutra coisa: a vida também nos dá irmãos que não nasceram dos nossos pais. Aqueles amigos que entram tão profundamente na nossa rotina que deixam de precisar de explicações. Os que aparecem nos piores dias, conhecem a nossa família, ficam para jantar sem cerimónia e sabem exatamente quando precisamos de ouvir “vai correr tudo bem” ou “não dramatizes tanto”.

Há amigos que acabam por ocupar espaços tão importantes quanto os irmãos. Às vezes até maiores. Pessoas que escolhem ficar, mesmo sem obrigação biológica nenhuma. É por isso que o Dia dos Irmãos me faz pensar que família raramente é apenas uma questão genética. É sobretudo uma questão de permanência. Das pessoas que continuam sentadas à nossa mesa ao longo da vida. Mesmo depois das discussões absurdas, dos silêncios, das fases complicadas e da distância.

No fim de contas, crescer é perceber que os irmãos não são apenas aqueles com quem crescemos. São também aqueles que escolhem crescer ao nosso lado.

#glitterupyourlife