O ChatGPT e o Síndrome de Impostor

No início, era útil. Respostas rápidas, ideias organizadas, a sensação de que finalmente havia uma forma de facilitar tarefas que antes demoravam horas. Escrever mais depressa, pensar melhor, estruturar melhor. Tudo parecia mais fácil, até que começou a fazer-me duvidar das minhas capacidades.

Aos poucos, o recurso a apps de IA torna-se uma dependência subtil. Ajuda naquela hesitação antes de começar algo, na dúvida se aquilo que estou a escrever é suficientemente bom ou se alguém faria melhor. A tentação constante de pedir mais uma versão, mais uma ideia, mais uma melhoria.

De repente, aquilo que ajudava começou também a levantar-me dúvidas porque mexe com a forma como nos vemos a nós próprios a pensar. Quando temos acesso constante a respostas rápidas e bem estruturadas, é difícil não comparar. Difícil não sentir que estamos sempre um passo atrás daquilo que poderia ser melhor, mais claro, mais eficiente. E o Síndrome de Impostor só aumenta. Porque, de repente, já não somos suficiente.

O ChatGPT responde sempre. Não hesita, não bloqueia, não precisa de tempo, não dá erros ortográficos. E isso cria uma expectativa estranha sobre nós próprios. Como se também devêssemos funcionar assim. Sem pausas, sem dúvidas, sem aquele processo mais lento que faz parte de pensar.

Mas pensar demora e há dias em que nem isso nos apetece fazer. E aí que começa a ansiedade. De repente, somos todos descendentes de Camões que usam travessões. Temos todos ideias geniais, mas ao fim de uns tempos começamos a ver que as ideias se repetem. E quando tentamos fazer sozinhos, sem qualquer ajuda, ficamos com uma sensação de que não está bem feito, bem pensado ou bem estruturado.

O ChatGPT é, de facto, útil em algumas coisas. Poupa tempo, organiza ideias, ajuda a desbloquear momentos difíceis. Em muitos contextos, melhora o trabalho. Tira-nos aquelas dúvidas que, noutros casos, teríamos de pagar para esclarecer (como a fazer o IRS – este ano, agradeço ao Chat GPT a ajuda).

Por isso, a questão não é rejeitar ou aceitar completamente, é perceber como usamos. Se a ferramenta começa a substituir o processo em vez de o apoiar, talvez seja sinal de que precisamos de criar alguma distância. Voltar a escrever sem ajuda, a pensar sem validação imediata, a aceitar que nem tudo precisa de ser perfeito à primeira. Porque há valor nisso. No erro, na dúvida, no tempo que demora.

O ChatGPT está a mostrar-nos, de forma muito clara, como lidamos com a pressão de fazer tudo melhor, mais rápido, mais certo. E isso já não tem só a ver com tecnologia, tem a ver connosco, com o que esperam de nós e com o que esperamos de nós mesmos.

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