Há uns tempos atrás a “Clara Não” fez um post no instagram que chamava a atenção para as várias faces da violência doméstica que, nos últimos anos em Portugal, tem vindo a aumentar segundo dados da APAV. Os pedidos de ajuda por violência doméstica aumentaram quase 30%, um número que é alarmante mas também um sinal: cada vez mais mulheres estão a reconhecer que o que vivem não é normal e, acima de tudo, não é aceitável.
Trabalho como psiquiatra com várias mulheres que enfrentaram ou ainda enfrentam este tipo de violência. E o que vejo, mais do que qualquer estatística, são os efeitos dramáticos e duradouros desta realidade nas suas vidas como traumas complexos, stress pós-traumático, ansiedade constante, culpa, vergonha e isolamento.
Mas para compreendermos a dimensão do problema, é fundamental entender que a violência doméstica não se limita apenas à mais conhecida violência física. Pode ser muito mais subtil, mais dissimulada e, por isso, mais difícil de denunciar e de reconhecer.
As várias faces da violência doméstica
A violência doméstica ocorre dentro de uma relação íntima ou familiar, e pode assumir diversas formas. Muitas vezes, estas formas estão entrelaçadas, criando um ciclo de abuso difícil de quebrar. Eis algumas das mais comuns:
- Violência física
É a mais visível: empurrar, bater, pontapear, queimar, estrangular. Pode deixar marcas no corpo, mas são muitas vezes as feridas da mente que mais demoram a sarar.
- Violência psicológica
É silenciosa, corrosiva e profundamente destrutiva. Pode incluir insultos, humilhações, ameaças, chantagens emocionais, manipulação (como o chamado gaslighting), controlo através do medo. Muitas mulheres chegam até mim sem uma única “nódoa negra”, mas com a autoestima destruída e a saúde mental devastada.
- Violência sexual
Dentro de relações íntimas, esta forma de violência é frequentemente ignorada ou relativizada. Impor relações sexuais, forçar práticas sem consentimento ou usar o sexo como forma de controlo são exemplos de abuso sexual, mesmo dentro do casamento ou namoro.
- Violência económica
Controlar o dinheiro da parceira, impedi-la de trabalhar, obrigá-la a entregar o salário ou impedir o acesso a contas bancárias são formas de manter o poder e limitar a autonomia. Esta dependência torna muitas vezes a saída da relação uma missão quase impossível.
- Violência social
Isolar a vítima da família, dos amigos, dos colegas. Desacreditá-la publicamente, impedir que estude, que trabalhe, que tenha liberdade de se movimentar. Esta forma de abuso destrói a rede de suporte, deixando a mulher ainda mais vulnerável.
- Violência digital
Com o crescimento das tecnologias, surgem novas formas de controlo: monitorizar o telemóvel, seguir cada passo nas redes sociais, instalar câmaras escondidas, partilhar conteúdos íntimos sem consentimento. A violência também migrou para o mundo digital.
- Terrorismo íntimo e feminicídio
Portugal continua a registar várias mortes de mulheres às mãos dos seus companheiros ou ex-companheiros. Estes casos extremos são apenas a face final de uma longa espiral de abuso que, muitas vezes, começou com palavras.
O trauma depois da violência
As consequências da violência doméstica vão muito além do momento do abuso. Muitas mulheres desenvolvem perturbações de stress pós-traumático, depressão, ansiedade generalizada e dificuldades em reconstruir a vida e a confiança em si mesmas e nos outros.
E não podemos esquecer as crianças: crescer num ambiente de violência doméstica deixa marcas emocionais profundas, mesmo que não sejam agredidas diretamente.
Sair é difícil. Mas é possível.
É importante não julgar as mulheres que permanecem numa relação abusiva. A maioria não fica porque quer, mas porque tem medo, não tem rede de apoio, depende financeiramente do abusador ou simplesmente não tem para onde ir. Muitas nem sequer reconhecem o que estão a viver como violência e é aqui que entra o nosso papel enquanto sociedade.
É urgente informar, sensibilizar e educar a sociedade sobre os diferentes tipos de violência doméstica e os seus impactos profundos na vida das vítimas, sobretudo das mulheres, que são, em Portugal, a esmagadora maioria dos casos. A mudança começa ao acreditarmos nas vítimas. As suas histórias são, muitas vezes, silenciadas pela vergonha, pelo medo ou pela incompreensão de quem as rodeia.
Também é necessário parar de culpar quem sofre e começar a responsabilizar quem agride. A inversão deste paradigma é essencial para combater a cultura de impunidade que ainda persiste.
Além disso, é crucial garantir o acesso facilitado a cuidados de saúde mental, nomeadamente no tratamento de traumas e stress pós-traumático, assim como a apoio jurídico e social. Nenhuma mulher deve sentir-se sozinha quando procura libertar-se de uma situação de violência.
É também fundamental divulgar os recursos que existem: a linha de apoio da APAV (116 006), as casas de abrigo espalhadas pelo país e os serviços especializados de apoio psicológico. Estes mecanismos salvam vidas e devem estar no centro de qualquer resposta eficaz contra a violência doméstica.
A violência é violência, mesmo sem marcas. E nenhuma mulher deveria viver com medo dentro da sua própria casa.
Temos de continuar a falar, a partilhar, a apoiar. Porque o silêncio protege o agressor. E porque cada mulher que se liberta de uma relação violenta é uma vida salva.
Artigo por Dra. Inês Costa Maia
Psiquiatra e Psicoterapeuta
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