Equilibrium II: as várias versões de Anitta, as homenagens e a fé como fio condutor de um sucesso

Anitta lançou, na madrugada de quinta para sexta-feira, o álbum Equilibrivm II, continuação direta do projeto que tinha começado em Abril deste ano. São 17 faixas à volta dos mesmos temas do primeiro volume: amor, espiritualidade e ancestralidade brasileira. Mas o que fez o disco explodir nas redes não foi só a música. Foi o curta-metragem musical que o acompanha, com mais de 30 minutos, onde Anitta se multiplica em versões de si mesma através da moda.

Uma Anitta, várias “skins”

O styling do projecto está a cargo de Daniel Ueda e André Philipe, que já assinavam os visuais da primeira parte do álbum. Os looks fugiram, prepositadamente, do eixo Rio-São Paulo e quiseram representar o Brasil na sua totalidade. O resultado é uma sucessão impressionante de trocas de figurino ao longo do curta, cada uma a representar uma faceta diferente da artista. Como o próprio stylist explicou, “várias Anittas”: a Carmen, as pombagiras, a romântica, a lúdica. Várias skins dela, como lhe chamou.

Essa multiplicação de personagens é o que dá ao projeto o seu tom irreverente. Não há um único figurino que resuma Equilibrivm II, há uma galeria inteira de identidades visuais, cada uma ligada a uma faixa e a um estado emocional diferente. Entre as marcas escolhidas estão a Isabela Capeto (com a saia de ráfia já desfilada no Rio Fashion Week), a Helô Rocha, a Normando, o chapéu de fibra de tucum do manauara Maurício Duarte e o trabalho artesanal do Ateliê Mão de Mãe, que uniu cabaças, palha e crochê num dos looks mais comentados do projeto.

A homenagem a Carmen Miranda

Um dos momentos mais falados do curta é a homenagem a Carmen Miranda, que acontece na faixa “Pra Você Gostar de Mim”, uma releitura da marchinha de carnaval “Taí”, imortalizada pela artista portuguesa naturalizada brasileira em 1930. Anitta recria a estética de turbantes e frutas tropicais que Carmen tornou símbolo da identidade brasileira lá fora.

A escolha não é apenas estética. Anitta já tinha explicado que conhecer a história de Carmen Miranda, e a forma como ela teve de se adaptar para sobreviver na indústria, a fez desejar para si própria “um final diferente”. A homenagem funciona, assim, como uma espécie de diálogo entre duas trajetórias de mulheres brasileiras dentro da música internacional, uma que já aconteceu e outra que ainda se está a escrever.

Tarot, orixás, astrologia e fé como coluna vertebral

Se a moda é a superfície, a espiritualidade é o esqueleto do projeto. O curta-metragem passa por personagens simbólicos como uma cartomante, um pai de santo, uma benzedeira, um caboclo e o próprio Exu, costurando as faixas a uma jornada de autoconhecimento e fé. A entidade Pombagira surge em vários momentos a conduzir conversas com Anitta sobre medo, amor, propósito e transformação.

A lista de referências religiosas e culturais é longa e percorre praticamente todo o álbum. “Ogum Me Rodeia” reúne Anitta, Maria Bethânia e Letícia Fialho numa homenagem ao orixá Ogum, com Bethânia a declamar um poema. “Feitiço”, com Mart’nália, samplea um ponto de Exu. “Contemplação” foi gravada com o Grupo Ofá, colectivo ligado ao Terreiro do Gantois, em Salvador, com versos em iorubá. “Oke” tem letra dedicada às populações indígenas, com participação de Katú Mirim e do grupo Brô MC’s. Já “Eu Não Sou Santa”, em parceria com o sanfoneiro Mestrinho, faz referência direta a Nossa Senhora Aparecida.

Uma história escrita pela própria artista

O dado mais revelador sobre este projeto é que foi a própria Anitta quem escreveu todo o roteiro do audiovisual, mais tarde lapidado pela equipa de produção. Em conferência de imprensa, a cantora explicou que a narrativa nasceu de uma experiência pessoal de autoconhecimento, resumida para caber nos 35 minutos do curta. Disse ainda que sente que a arte deve sempre ter a ambição de mudar a forma como as pessoas pensam, e que só investe este tipo de dinheiro em projetos que sabe que vão ter impacto real na vida de quem os vê.

É essa mistura de ambição artística, memória pessoal e fé que transforma Equilibrivm II em muito mais do que um álbum de encerramento de ciclo. É um retrato de uma artista a reconciliar-se com as várias versões de si mesma, dos copos de café da infância até às pombagiras que a guiam agora.

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