Há uma frase que ouço com frequência em consulta: “Não quis dizer nada para não o/a magoar.” É muitas vezes dita com boa intenção mas, paradoxalmente, é também quase sempre o início de um problema maior do que aquele que se tentou evitar.
Evitamos conversas difíceis por uma razão que nos soa nobre, a de não queremos sobrecarregar o outro, não queremos armar uma confusão, ou não queremos parecer exigentes ou frágeis. O problema é que este silêncio raramente faz o assunto desaparecer, apenas o muda de sítio, “para debaixo do tapete”. Em vez de se falar sobre o que realmente incomoda, fala-se sobre os seus sintomas e a conversa acontece, sim, mas à superfície, enquanto o que realmente pesa fica por dizer. Com o tempo, este tipo de comunicação tem um efeito cumulativo curioso: quanto menos se diz o que se sente, mais difícil se torna sequer sabê-lo. Não calamos só o que sentimos, mas também deixamos de investir em descobri-lo porque, se não vai ser dito, para quê saber? É um dos paradoxos mais comuns na terapia: não é o conflito que corrói as relações, mas sim a ausência dele.
Um dos enganos mais comuns é imaginar a conversa evitada como catastrófica antes sequer de ela acontecer. Antecipamos a zanga, a rutura, e escolhemos o silêncio como forma de “gerir” o risco. Mas a experiência clínica e a vida, com mais frequência do que gostaríamos de admitir, mostra o contrário. Quando a conversa finalmente acontece, é frequentemente recebida com alívio. A pessoa do outro lado também estava, muitas vezes, a evitar a mesma coisa. Isto não significa que todas as conversas difíceis corram bem, mas significa que o custo de não as ter (a distância que se instala, o ressentimento que se acumula e a intimidade que desaparece) costuma ser maior do que o risco real da conversa em si.
Este padrão não se limita a casais. Entre irmãos, os papéis da infância tendem a estabelecer-se: quem foi sempre “o esperto”, quem foi sempre “o esquecido”, persistem décadas depois de deixarem de fazer sentido, precisamente porque nunca ninguém parou para os questionar. Reparar uma relação fraturada exige o exercício estranho de conhecer de novo alguém que já se julgava conhecer e com isso fazer perguntas, ser curioso. Como se se tratasse de um desconhecido e não de alguém com quem se cresceu.
Há ainda as conversas que evitamos por medo de consequências reais como por exemplo negociar dinheiro com um ex-parceiro com receio de que isso afete a relação com os filhos. Nestes casos, evitar é compreensível. Mas a ausência de conversa não elimina o problema, apenas o adia, geralmente para um momento em que já há menos margem de manobra e mais amargura acumulada.
O que ajuda
Não há fórmulas mágicas, mas há alguns princípios que se podem aplicar:
- Nomear o que se sente antes de tentar resolver o que se passa. Muitas conversas evitadas começam por tentar resolver um problema prático quando, na verdade, o que precisa de ser dito é emocional.
- Baixar a fasquia da primeira conversa. Não precisa de resolver tudo de uma vez.
- Aceitar que o outro pode estar tão vulnerável como nós. Quem evita raramente está sozinho a evitar.
- Não confundir evitar o conflito com preservar a relação. São, com frequência, o oposto.
Deve-se clarificar primeiro o que se sente e pensa e só depois comunicá-lo, em vez de esperar que o silêncio o faça por nós. Continua a ser invariavelmente mais assustador falar do que calar, mas é raro alguém se arrepender de ter falado. É muito mais comum arrepender-se do tempo que se passou em silêncio.
Artigo por Inês Costa Maia
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