Entrevista | Andreia Rodrigues: “Não cuides do teu corpo porque não gostas do que vês. Cuida dele porque é o único lugar onde vais viver toda a tua vida”

Aos 42 anos, Andreia Rodrigues fala de exercício, saúde e bem-estar com a serenidade de quem já deixou de perseguir a perfeição. Entre a televisão, a maternidade, a família e uma agenda exigente, a apresentadora encontrou na consistência o verdadeiro segredo para se sentir forte, equilibrada e confortável na própria pele. Nesta entrevista, fala sem filtros sobre pressão estética, disciplina, kickboxing, descanso e a importância de construir hábitos possíveis. Mais do que treinar para o espelho, Andreia treina para a mulher que quer ser aos 50, 60 e muitos anos depois disso. Depois de ler, é impossível não ficar motivado.

Andreia, tens 42 anos e uma forma física invejável. Quais os teus segredos para estares em forma?

Não me basear em segredos. Mas sim naquilo que sabemos que nos leva mais longe: a consistência. Ter um objetivo é fundamental. Treinamos porquê?! Para quê?  Não vou ser hipócrita, claro que a forma física importa e mexe com a auto-estima mas hoje, para mim, estar em forma vai muito além das questões estéticas.

Durante muito tempo, como muitas mulheres, dedicava tempo da minha vida à procura do defeito seguinte. Hoje quero outra coisa. Procuro a minha melhor versão, sim, gosto de me olhar ao espelho e sentir-me bem mas acima de tudo quero sentir-me forte, gosto dessa sensação e quero chegar aos 50, aos 60, e por aí em diante, com saúde, com força e com energia para aproveitar a vida ao máximo, em cada etapa. Por isso, além do kickboxing, incluí na minha rotina treinos de força e flexibilidade.

O treino passou a ser também um investimento na mulher que quero ser daqui dez, vinte, trinta anos. E isso mudou completamente a forma como cuido de mim.

A tua agenda divide-se entre televisão, família e vida pública. Como é que encaixas o movimento e o cuidado com o corpo num dia que deve ter muito menos horas do que precisas?

Se eu esperar que sobre tempo, nunca acontece. Por isso marco o treino na agenda como marcaria uma reunião importante. Nem sempre consigo fazer exatamente o que tinha planeado mas faço alguma coisa, se for só 30min é melhor que nada. Se não conseguir ir ao ginásio ou à academia tento treinar em casa com elásticos, por exemplo, ou vou correr. 

Há uma pressão específica em estar constantemente em forma em frente às câmaras? Sentes que isso mudou a tua relação com o teu corpo ao longo dos anos, para melhor, para pior, ou simplesmente de forma diferente?

Acho que, muitas vezes, a maior pressão nem sequer vem dos outros, vem de nós, de padrões errados em que acreditamos ou do quão permeáveis somos. Nem sempre tive a relação que tenho atualmente com o meu corpo, quando era mais nova a opinião dos outros importava mais. Essa pressão de que falas eu já senti e confesso que quando a senti até foi no sentido contrário, ou seja, para ter peso a mais e cheguei a sofrer com isso, porque ouvi palavras menos simpáticas. 

A idade e a maternidade trouxeram-me leveza, sinto-me muito mais livre porque percebi que o meu valor não aumenta nem diminui consoante o número que vejo na balança ou aquilo que leio nas redes sociais. Quero ser saudável e sentir-me bem na minha pele mas o corpo é meu e a forma como eu me sinto nele é o que importa. Não almejo a perfeição, até porque não existe, nem quero viver pela bitola dos outros. E essa liberdade dá-nos uma paz enorme, seja em que sentido for.

Qual é o hábito de bem-estar que nunca abdicas, mesmo nas semanas mais caóticas? Aquela coisa que, se não fizeres, toda a gente à tua volta sente a diferença?

Treinar. Mesmo nos dias mais difíceis preciso de algum momento de movimento, nem que seja uma corrida ou um treino mais curto. A diferença sente-se imediatamente no meu humor, na minha energia e até na forma como lido com os desafios do dia. O desporto para mim é uma forma de estar, faz-me sentir bem, traz-me equilíbrio, clareza, tranquilidade. 

Chegaste aos 42 com uma energia e uma presença física que muita gente não tem aos vinte. O que é que mudaste, na alimentação, no treino, na cabeça, em relação ao que fazias há dez anos?

Sou mais disciplinada. Percebi que a consistência é a base de toda a evolução, seja em que idade for, mas depois dos 40 isso torna-se ainda mais evidente. Para evoluir e manter o que conquistamos temos de ser consistentes. E é importante ver o corpo como um todo, sem fundamentalismos, mas com equilíbrio. Não abdico dos treinos de força e dou imensa importância ao descanso, ao sono. Aprendi que o descanso faz parte da disciplina. Tento alimentar-me bem na maior parte do tempo, durmo o melhor que consigo e aprendi que cuidar do corpo não é um projeto de verão, é uma relação para a vida.

O que é que gostarias de ter sabido sobre cuidar do teu corpo e da tua saúde mental quando tinhas vinte e poucos anos e que só percebeste mais tarde?

Olha, gostaria de ter sabido que o kickboxing é uma modalidade incrível. O kickboxing levou-me para outro nível, é uma meditação ativa para mim, mas a verdade é que no tatami eu desafio-me, supero-me e sinto-me mais forte. Nos dias mais difíceis, eu fui treinar. É uma modalidade que se soubermos usufruir dela tem um poder físico e mental incrível. Há uma questão que, nos tempos que correm, se eu tivesse 20 anos gostaria que me dissessem: ninguém ganha uma guerra contra o próprio corpo. Se passarmos a vida a criticá-lo ele nunca será suficiente e isso tem impacto na nossa saúde física  e mental. Por outro lado, quando começamos a cuidar dele, com respeito, ele responde-nos de uma forma extraordinária. 

Aprendi, também, a não fugir das minhas fragilidades, sei que preciso de as encarar, de as aceitar e acolher para as poder perceber e a partir daí evoluir. E isto é transversal a muitas áreas das nossas vidas. 

Para terminar, e porque este artigo vai ser lido por muitas mulheres que querem sentir-se melhor mas não sabem por onde começar: qual é o conselho mais honesto que podes dar?

Não esperes pelo momento perfeito. Não esperes sentir-te motivada. Haverá sempre uma reunião, horários para gerir, imprevistos, dias em que dormimos mal e nos sentimos cansadas, mas a vida vai passando enquanto adias o que realmente te faz bem e contribui para a tua saúde. 

Pequenos hábitos evoluem para hábitos maiores. Há 4 anos, quando a minha filha mais nova tinha 1 ano, voltei a treinar de forma regular. Assumi um compromisso de treinar só 2 vezes por semana, mas não podia falhar. Eram só 2 horas em sete dias. Era este o pensamento. O importante não é começar em grande, é continuar quando a motivação desaparecer. É aí que os resultados aparecem. Não queiram fazer tudo numa segunda-feira. Comecem com pequenos hábitos. A fazer escolhas mais conscientes.  

Hoje, quatro anos depois, se tudo correr bem faço 6/7 treinos por semana, mas no “pior” cenário pelo menos 4 treinos tenho de fazer. É o meu compromisso comigo. 

As pequenas conquistas e os pequenos hábitos geram em nós uma sensação que nos leva para o patamar seguinte. Tenho a certeza que quando sentirem que conseguem manter o compromisso e ele passar a fazer parte da vossa rotina, sem esforço, será mais fácil passarem para o patamar seguinte, aumentar o volume de treinos e treinarem três vezes em vez de duas, por exemplo. É um processo. O importante é começar. Com uma caminhada. Com uma refeição melhor. A beber um pouco mais de água. A deitarem-se 30min mais cedo. 

Aprendi que as grandes transformações raramente começam com decisões gigantes, mas sim com pequenas escolhas repetidas durante muito tempo.

E há uma frase, que mesmo sendo um clichê,  que acredito mesmo: não cuides do teu corpo porque não gostas do que vês ou porque o comparas com outro corpo ; cuida dele porque é o único lugar onde vais viver toda a tua vida.

#GlitterUpYourLife