Há um momento específico na vida de qualquer pai ou mãe em que percebe que deixou de perceber o que o filho está a dizer. Não é uma questão de vocabulário, é uma questão de geração. Os miúdos de hoje falam uma língua própria, construída a partir do TikTok, do YouTube, dos jogos online e de uma internet que produz novas expressões mais depressa do que qualquer dicionário consegue acompanhar.
Este glossário não é exaustivo, porque a língua deles muda a uma velocidade que torna qualquer lista provisória por definição. Mas é um bom ponto de partida para perceberes o que está a acontecer nas conversas que ouves ao jantar, nas mensagens que aparecem no ecrã do telemóvel e nos sons que vêm do quarto fechado.
“Brain rot” é provavelmente a expressão mais usada do momento e tem uma ironia embutida que os miúdos apreciam. Significa literalmente “podridão cerebral” e é usada para descrever conteúdo completamente absurdo, sem sentido e sem valor que se consome online de forma compulsiva. “Isto é brain rot” pode ser dito com crítica mas é usado mais frequentemente com afeto, quase como elogio. Quando os miúdos dizem “tenho brain rot” estão a dizer que passaram tempo a consumir conteúdo ridículo na internet e que provavelmente gostaram.
“Farmar” vem diretamente dos jogos eletrônicos, como Minecraft e Fortnite. Nesses ambientes, “farmar” significa realizar tarefas repetitivas para acumular recursos, pontos ou experiência. Já a “aura” é entendida como o carisma, a presença, a energia ou a “vibe” que uma pessoa transmite. Portanto, “farmar aura” significa agir de forma a acumular pontos de estilo, construindo uma imagem de alguém interessante, inspirador ou “cool”.
“Rizz” é charme. Carisma. A capacidade natural de atrair outras pessoas sem esforço aparente. Alguém com rizz entra numa sala e toda a gente repara. “Tem muito rizz” é um dos maiores elogios que a geração atual distribui. Existe também a versão “W rizz” para charme máximo e “L rizz” para quem não tem jeito nenhum para isso.
“Slay” existe há décadas na cultura queer e drag, foi popularizado globalmente pela RuPaul’s Drag Race e foi completamente adoptado pela geração Z como sinónimo de arrasar, fazer algo muito bem, ter um visual impecável. “Ela slay” ou simplesmente “slay” como resposta a uma foto significa aprovação total e entusiasta. É um dos termos mais transgeracionais desta lista.
“No cap” significa “sem mentira”, “a sério”, “juro que é verdade”. O oposto é “cap”, que significa mentira ou exagero. “No cap, aquilo foi incrível” é o equivalente moderno de “juro por Deus que aquilo foi incrível”. A expressão vem do slang afro-americano e foi adoptada globalmente através do hip-hop e das redes sociais.
“Bafo” é uma das que chegaram com mais força ao vocabulário português jovem e é usada para descrever algo muito bom, de grande qualidade, impressionante. “Aquela música é bafo” significa que a música é extraordinária. É uma expressão com raízes no calão português que foi ressignificada pela geração atual com uma conotação completamente positiva. Pode também ser usada como interjeição de aprovação.
“6-7” ou “six-seven” é uma expressão de indiferença. Significa mais ou menos, nem bem nem mal, na média. Perguntam “como foi o teste?” e a resposta é “6-7”, passou, não foi grande coisa, a vida continua. A expressão foi adoptada pela comunicação quotidiana como forma de expressar uma ausência de opinião forte sobre algo.
“Ate” pronuncia-se “eyt” e significa que alguém fez algo muito bem, que conseguiu, que arrasou. “She ate” ou “ela ate” é o reconhecimento de que alguém entregou exatamente o que devia entregar, numa performance, num look, numa resposta, numa situação qualquer. Vem da cultura drag e queer americana e chegou ao mainstream via redes sociais.
“Delulu” é a versão abreviada de “delusional” e descreve alguém que tem expectativas completamente irrealistas ou que vive numa fantasia desligada da realidade. Pode ser usado com carinho, “sou delulu, sei lá” dito por alguém que admite que está a fantasiar com algo improvável, ou com crítica. Existe toda uma filosofia internet em torno da frase “delulu is the solulu”, ou seja, a ilusão é a solução, como forma irónica de promover o optimismo exagerado.
“NPC” vem da linguagem dos videojogos, Non-Playable Character, ou seja, uma personagem controlada pelo computador que age de forma mecânica e repetitiva. Quando aplicado a pessoas reais, significa alguém que segue padrões sem pensar, que faz sempre o mesmo, que não tem personalidade própria ou que reage de forma previsível a qualquer situação. “Comportas-te como um NPC” é um insulto. Existe também uma trend de TikTok em que as pessoas imitam o comportamento robótico dos NPCs dos jogos, que é, simultaneamente, muito estranha e muito popular.
“Hits different” descreve uma experiência que tem um impacto emocional particularmente forte devido ao contexto em que acontece. “Esta música hits different de noite” ou “isto hits different depois de uma semana má”. Já “mais mais” vem do Brasil e serve para elogiar alguém. Por exemplo, “ela é a mais mais”, ou seja, é a melhor.
Uma nota final para quem está a usar este glossário com intenção de parecer que percebe: os miúdos detetam isso imediatamente e é a coisa mais “cringe” que um adulto pode fazer. Cringe, por acaso, significa embaraçoso, que faz vergonha alheia e é exatamente o que sentes quando o teu pai diz “rizz” ao jantar a tentar ser fixe.
O melhor uso deste glossário é perceber o que estão a dizer, não tentar falar como eles. Essa fronteira, respeitada, tende a resultar em muito menos cringe para toda a família.
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