Há um discurso muito instalado sobre o fim da licença de maternidade, e ele gira quase sempre à volta da mesma ideia: o sofrimento de deixar um bebé tão pequeno. E sim, esse choque existe. Existe de uma forma brutal, física, quase animalesca. Existe no nó na garganta quando começamos a contar os dias. Existe na culpa absurda de sair de casa e deixá-lo na creche. Existe na logística, no leite, nas noites mal dormidas, no corpo que ainda está a tentar perceber o que lhe aconteceu e na cabeça que continua meio repartida entre dois mundos. Existe naquela sensação profundamente antinatural de estar a vestir roupa “normal”, pegar na mala e agir como se fosse minimamente simples deixar um bebé que ainda cheira a colo e a sono.
É difícil. É mesmo difícil. Não vale a pena romantizar essa parte nem fingir que a transição é leve só porque faz parte da vida. É violento e sentimos como o interromper de uma bolha intensa e absorvente para regressar à produtividade, aos horários, aos emails e às reuniões. Sobretudo quando o bebé ainda é tão pequeno que o corpo inteiro nos diz que devíamos continuar ali. Mais um bocadinho. Só mais um bocadinho.
Por norma, a maioria das mulheres entra nesse regresso já com uma narrativa pronta: vai custar horrores, vou sentir-me dividida o tempo todo, vou passar o dia a pensar nele, vou trabalhar em modo automático e arrastar comigo uma culpa permanente por, de alguma forma, estar a falhar em todos os lados ao mesmo tempo.
O que ninguém me preparou, e suspeito que não tenha preparado muita gente, foi para outra possibilidade: a de me saber bem voltar.
Não de uma forma fria, não de uma forma desprendida, porque não foi nada disso. Sou mãe, continuo profundamente ligada ao meu filho, continuo a achar que o tempo com ele passa depressa demais. Mas, ao mesmo tempo, houve uma parte de mim que respirou quando voltou a trabalhar. E demorei um bocadinho a admitir isso até a mim própria, porque parecia quase uma traição à maternidade feliz e agradecida que se espera de nós.
Mas a verdade é esta: pode saber bem voltar a ter um espaço que também é nosso.
Pode saber bem vestirmo-nos e sair de casa com um destino que não seja uma consulta, uma farmácia ou um supermercado onde aproveitamos para comprar fraldas. Sabe bem voltar a ter conversas que não começam nem acabam em cocós, sestas, refluxo ou percentis. Sabe bem usar uma parte do cérebro que estava em suspenso, sentirmo-nos competentes noutras coisas, voltarmos a produzir, a decidir, a resolver, a ter objetivos que não passam exclusivamente por manter um bebé vivo, alimentado e minimamente bem disposto.
Há uma versão muito redutora da maternidade que parece esperar que, depois de termos um filho, tudo o resto perca importância. Como se o amor por um bebé tivesse obrigatoriamente de engolir todas as outras identidades: a profissional, a criativa, a social, a ambiciosa, a mulher que gosta do que faz e que sente prazer em trabalhar. Como se sentir falta dessa parte fosse um defeito de ligação, uma espécie de falha moral. E eu acho que não é. Acho, aliás, que para muitas de nós o verdadeiro susto não é só deixar o bebé. É descobrir que, no meio da culpa e do cansaço, há também alívio. Há também prazer. Há também uma certa alegria em voltar a ser chamada pelo nosso nome e não apenas por “mãe”.
Quando gostamos do que fazemos, trabalhar pode ser muito mais do que cumprir um horário ou pagar contas. Pode ser identidade, estímulo, autonomia, autoestima, foco, prazer, até descanso mental, um descanso diferente, claro, mas ainda assim descanso. E isso não anula o amor pelos filhos; só nos lembra que a maternidade não apaga automaticamente tudo o resto que somos.
Voltar ao trabalho depois da licença de maternidade continua a ser duro. Continua a ter manhãs difíceis, culpas ridículas, cansaço acumulado e uma logística que parece desenhada por alguém que nunca teve crianças. Continua a haver dias em que só queremos largar tudo e voltar para casa mais cedo. Continua a haver o coração meio repartido. Mas, no meio disso, pode existir também uma verdade menos falada e um bocadinho desconfortável de dizer em voz alta: saber bem voltar.
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