As redes sociais, pelo olhar de uma psicóloga

No dia em que se assinala o Dia Mundial das Redes Sociais, somos convidados a refletir sobre um fenómeno que, mais do que tecnológico, é profundamente humano. As redes sociais não são apenas plataformas digitais, são extensões do nosso mundo interno, espelhos dos nossos desejos, da identidade e da necessidade de reconhecimento. Enquanto psicóloga clínica, proponho um olhar que ultrapassa o óbvio, o tempo de ecrã, os algoritmos ou a exposição para explorar o que, de facto, nos move neste espaço virtual.

A promessa de ligação: o desejo de ser visto
Sabemos que o ser humano se constitui na relação com o outro. O olhar do outro valida a existência, estrutura o eu e alimenta o sentimento de pertença. As redes sociais parecem oferecer uma resposta quase mágica a esta necessidade: estamos sempre ligados, sempre visíveis, sempre potencialmente reconhecidos.
Mas esta promessa contém uma armadilha subtil. O “gosto”, o comentário, o número de seguidores, estes elementos funcionam como pequenas doses de validação externa que podem rapidamente tornar-se indispensáveis. A lógica inconsciente que se instala é simples: “sou na medida em que sou visto”. Assim, a identidade começa a deslocar-se do interior para o exterior, do sentir para o mostrar.
Nas redes sociais, não mostramos quem somos, mostramos quem gostaríamos de ser. Este processo remete-nos para o conceito de “eu ideal”: uma versão de nós próprios construída a partir de expectativas, fantasias e modelos culturais. Fotografias cuidadosamente selecionadas, narrativas editadas, momentos felizes amplificados, tudo contribui para a criação de uma identidade digital que, muitas vezes, pouco tem a ver com a complexidade da vida real.
O problema não reside nesta construção em si… todos, de alguma forma, idealizamos. A questão surge quando começamos a identificar-nos excessivamente com essa versão idealizada, gerando um desfasamento entre o eu real e o eu apresentado. Isto pode dar origem a sentimentos de inadequação, vazio e até angústia, sobretudo quando a realidade não acompanha a narrativa digital.

Comparação e inveja: o outro como ameaça
Se, por um lado, procuramos ser vistos, por outro, não conseguimos deixar de ver. E ao ver o outro: aparentemente mais feliz, mais realizado, “mais bonito”, somos confrontados com aquilo que sentimos faltar em nós. A comparação constante, facilitada pela exposição contínua a vidas “perfeitas”, alimenta sentimentos de inveja e insuficiência.
Na perspetiva psicanalítica, a inveja não é apenas o desejo de ter o que o outro tem, é também o sofrimento perante a perceção de que o outro possui algo que nos escapa. As redes sociais intensificam este processo ao apresentar versões idealizadas da realidade, criando uma espécie de palco onde todos parecem estar melhor do que nós.

Relações superficiais ou novas formas de intimidade?
Muito se discute sobre a superficialidade das relações nas redes sociais. É verdade que muitas interações são rápidas, breves e pouco profundas. No entanto, seria redutor ignorar que estas plataformas também permitem formas de ligação que, de outro modo, talvez não existissem.
A questão não está tanto no meio, mas na forma como o utilizamos. As redes sociais podem ser espaços de partilha autêntica e de encontro genuíno, mas exigem uma capacidade de autorreflexão que nem sempre é fácil de manter num ambiente desenhado para a rapidez e a gratificação imediata.

O risco do vazio: quando o excesso substitui o essencial
Paradoxalmente, quanto mais ligados estamos, mais podemos sentir-nos sós. O excesso de estímulos, de imagens, de narrativas, pode funcionar como uma defesa contra o contacto com o nosso mundo interno. Em vez de pensar, sentimos necessidade de deslizar. Em vez de sentir, procuramos distrair-nos. Este movimento pode conduzir a uma experiência de vazio, não um vazio produtivo, necessário à reflexão e à criatividade, mas um vazio preenchido artificialmente, que impede o verdadeiro encontro consigo próprio.
Acorda e, ainda antes de sair da cama, desliza o dedo pelo ecrã. Alguém já foi correr ao nascer do sol. Outra pessoa está num brunch digno de capa de revista. Há quem viaje, quem ame, quem tenha sempre a pele perfeita e a vida organizada. E nós? Ainda de pijama, a tentar perceber por onde começar o dia.
O universo das redes sociais é um palco onde todos parecem viver melhor, mais intensamente e, claro, mais felizes. No Dia Mundial das Redes Sociais, vale a pena fazer uma pausa (nem que seja breve) para pensar: o que é que isto tudo nos está realmente a fazer?

A comparação silenciosa
Não damos por isso, mas acontece. Estamos a ver histórias, fotografias, reels… e, de repente, sentimos qualquer coisa difícil de explicar. Um desconforto subtil. Uma sensação de que estamos “atrasadas” na vida.
A amiga que já comprou casa. A colega que mudou de carreira e parece realizada. A influencer que tem tempo para tudo como trabalho, ginásio, alimentação saudável, férias de sonho. Mas há aqui um detalhe importante: estamos a comparar o nosso “bastidor” com o “palco” dos outros.
Ninguém publica as discussões, as inseguranças, os dias em que nada corre bem. Aquilo que vemos é uma versão editada e escolhida, filtrada, afinada ao detalhe.

O vício da validação
Publicamos uma fotografia e esperamos. Quantos gostos? Quem comentou? Quem viu?
Pode parecer superficial, mas não é. Cada notificação ativa uma pequena sensação de recompensa. É quase como se alguém dissesse: “estás bem assim”, “és suficiente”, “continua”. O problema surge quando começamos a depender disso.
Quantas vezes já apagou uma fotografia porque não teve o impacto esperado? Ou pensou duas vezes antes de publicar algo mais espontâneo, com medo de não ser “bom o suficiente”? Sem darmos conta, começamos a moldar-nos ao olhar dos outros.

A pressão de estar sempre bem
Nas redes sociais, há uma espécie de regra não escrita: mostrar o melhor lado. Isso cria uma pressão enorme para parecer sempre bem, feliz, produtivo e equilibrado. Mas a vida real não é assim. Há dias de cansaço, de dúvidas, de falhas. Há momentos em que não queremos sair da cama, quanto mais tirar uma fotografia bonita. E está tudo certo com isso. O problema é quando deixamos de aceitar essa imperfeição, porque não encaixa no feed.

Nem tudo é negativo e isso também importa
As redes sociais também aproximam, inspiram, informam. Permitem-nos descobrir novas ideias, manter contacto com pessoas distantes, encontrar comunidades onde nos sentimos compreendidas. O problema não está nas redes em si, mas na forma como nos relacionamos com elas.

Um convite à consciência
Neste Dia Mundial das Redes Sociais, talvez o desafio não seja desligar, mas sim ligar de forma diferente. Perguntar: o que procuro quando entro numa rede social? O que sinto quando saio? Estou a aproximar-me de mim ou a afastar-me?
A psicanálise não propõe respostas rápidas, mas convida à pergunta. E é nesse espaço de questionamento que pode surgir uma relação mais saudável com o digital, uma relação onde as redes sociais deixam de ser um lugar de validação compulsiva e passam a ser apenas mais uma ferramenta ao serviço da nossa humanidade.
Porque, no final, nenhuma rede substitui aquilo que verdadeiramente nos sustenta: a capacidade de estar consigo e com o outro, de forma autêntica, imperfeita e real.

Artigo Por Dra. Andreia Vieira, psicóloga clínica
Instagram @psicologa_andreiavieira