Fizeram-nos acreditar que o amor é acreditar, esperar, dar tempo, ver para além das falhas. E é isso que torna o potencial tão perigoso: deixamos de viver a realidade para viver num conceito que imaginamos. E a imaginação é extraordinária a preencher espaços vazios.
A ideia romântica de acreditarmos no potencial de alguém é nos vendida desde cedo: dar espaço para crescer, acreditar na mudança, ver para além do óbvio. O conceito de potencial é, na verdade, uma ideia perigosa na construção de relações saudáveis. É uma projeção. Uma versão cuidadosamente construída pela nossa esperança. E a esperança, quando não é acompanhada por ações, pode ser uma das emoções mais destrutivas que existe.
Se pensarmos bem, apaixonamo-nos por pessoas que não existem. Apaixonamo-nos pela versão que imaginamos (e queremos) dela. Pela pessoa que podia ser se comunicasse melhor. Se estivesse mais disponível. Se resolvesse os seus traumas. Se estivesse numa fase diferente da vida. Uma vida rodeada de “e ses” onde amamos tudo menos quem a pessoa realmente é hoje, no presente.
Mas é compreensível, estamos a falar de uma ideia confortável e que muitas vezes nos permite adiar decisões difíceis: a possibilidade de que daqui a um mês vai ser diferente, a possibilidade de ter mais uma conversa, de que não vamos voltar a ter uma desilusão. Desculpem ser eu a desiludir-vos mas ninguém constrói uma relação sobre possibilidades.
E com isto não quero dizer que as pessoas não podem mudar, claro que mudam. O que quero dizer é que não podemos mudar ninguém a não ser que as mesmas queiram e assim o decidam. O amor cura (e às vezes abre olhos) mas não transforma.
Há uma diferença entre apoiar o crescimento de alguém e ficar presa à expectativa desse crescimento, até porque o amor não é, nem pode ser, um ato de fé. Não devias precisar de imaginar uma versão futura de alguém para conseguires justificar a relação que tens hoje. Porque, e se, o potencial nunca chegar? E se eles nunca mudarem? O potencial é uma promessa sem qualquer tipo de garantia, e essa promessa pode custar-te anos de vida.
É exatamente nessa promessa que mora a dor de ir embora. Não porque deixaste de amar, ou porque sofreste pelo que a relação foi. Sofremos, sobretudo, pelo que acreditávamos que ainda podia vir a ser. É por isso que custa tanto ir embora. Não estás a deixar uma pessoa, estás a fazer o luto de um futuro que imaginaste. O potencial tem este poder perverso: faz-nos negociar mínimos porque estamos obcecados com máximos. A psicologia explica este fenómeno: quanto mais investimos em alguma coisa, mais difícil se torna abandoná-la, mesmo quando sabemos que não nos está a levar a lado nenhum.
O amor não acontece entre quem duas pessoas podem vir a ser. Acontece entre quem elas escolhem ser, todos os dias. E nenhuma relação devia viver às custas de um futuro que nunca vai chegar. E é aqui que a conversa se torna desconfortável: não és responsável pela futura versão de ninguém mas és responsável pela versão que aceitar na tua vida.
A maturidade não vem quando acreditamos no melhor de alguém, quando vestimos a capa de herói e aguentamos aquilo que ninguém aguentou (supostamente por amor), ou quando continuamos a alimentar o nosso ego (porque a verdade é que vimos algo especial em alguém que mais ninguém viu e existe sempre algo de poético nisso), vem quando aprendemos a distinguir quem elas podem ser, de quem escolhem ser, todos os dias.
O potencial nunca partiu o teu coração. Tu é que o partiste quando escolheste amar repetidamente uma versão de alguém que essa pessoa nunca teve intenção, ou capacidade, de ser.
Artigo por Rita Pinto Da Silva
#TheGlitterDream