Meu querido mês de agosto

Para quem vive longe, mas deixou o coração em Portugal, agosto surge como uma oportunidade para voltar – às origens, às ruas conhecidas, aos braços dos que ficaram por cá.

Na verdade, agosto começa sempre meses antes: os voos comprados em março, o “em que dia vens?” da avó, os cafés, almoços e jantares com amigos marcados com antecedência, porque “sim, com um bocadinho de organização, garanto que dá para ver toda a gente”. A contagem decrescente vai pesando no peito, porque um dia a mais é também um dia a menos para estar de volta, perto dos cheiros e vozes de sempre. E, se é verdade que é o pico das saudades, também é verdade que o peito anda mais leve – já falta pouco.

Estou em crer que há um semiprotocolo tácito que qualquer emigrante retornado conhece bem. Abrir o frigorífico e constatar que alguém já comprou os nossos iogurtes favoritos (obrigada, mãe); atirar a mala para um canto sem grande urgência de a desfazer, porque vai ter de voltar a entrar tudo, dali a um par de semanas; ir ver os avós (e, provavelmente, ter mais um íman para lhes decorar a cozinha); beber um café (com sabor a café, e não dessas águas turvas que se servem no resto do mundo); dar um mergulho na praia que viu todos os nossos castelos na areia; e um almoço sem horas contadas com aqueles que o coração mais ansiava ter perto. 

Passamos os dias que se seguem cientes de que é sol de pouca dura, mas sem querer lembrá-lo – e sem tempo para isso. Mas está lá; a descoberta (com uma lucidez quase dolorosa) de que não estivemos por perto para ver a vida que foi acontecendo: os primos já dão pelo queixo, fechou aquela retrosaria, o mais pequeno já sabe fazer a volta ao mundo com a bola, a amiga foi viver com o namorado e há na mala um souvenir para a nova casa que ainda nem conhecemos. São muito descarados os começos, os avanços e os términos que perdemos. 

E voltar é saber aceitar o que continua igual e o que, entretanto, mudou; é ir lembrando que não há mal nenhum na variabilidade, até porque isso é sinal de que, tal como quem está longe vai trilhando caminho, quem ficou não está preso no tempo. E, se o fazemos – se acalentamos curiosidade pelo que é agora, em vez de nostalgia pelo que foi há um ano – temos as duas semanas mais ricas do calendário. Sentimos que fazemos parte. Explicam-nos as novas piadas do grupo, a senhora do café ao fundo da rua ainda se lembra do nosso nome, compramos as bolachas daquela marca que não há lá nessa outra cidade para onde fomos e passeamos pelo novo parque do bairro. Falamos a nossa língua e conhecemos-lhe (sem pensar) os cantos e recantos, os truques e nuances; não é preciso traduzir – nem as palavras com que pedimos a conta, nem a saudade. É o mês mais quente do ano, porque é aquele em que o coração vai mais cheio.

Há quem desça para as praias mais a sul, quem fique a baloiçar numa rede rodeada de paz algures pelo Alentejo, quem fique pela capital, entre arraiais e mar, e quem suba para norte, onde as festas da aldeia prometem ser ponto de encontro para todas as histórias vividas naquele ano.

A banda canta “meu querido mês de agosto” e ouve-se o esperado “por ti passo o ano inteiro a sonhar”, entre passos de dança e o tilintar das cervejas. A barriga está cheia (em casa, está sempre), as bochechas rosadas, tal é o entusiasmo, e a noite está quente e iluminada pelas estrelas – “vou pedir um desejo”. É que… há uma vontade de partilhar tudo isto com aquela mão cheia de pessoas especiais que, entretanto, passado um ano, se tornaram casa longe de casa; mas não podemos ter tudo ao mesmo tempo. É cá ou lá. E volta a morder-nos aquela sensação agridoce. Quantas casas podemos ter? Como sabemos que criámos mais uma? Porque sim, queria voltar a comer o cozido da avó, a ler ao serão com a mãe, a jogar às cartas com o avô, a ensaiar o bailarico com o pai… e o coração sabe-se um perfeito sortudo, mas, mesmo assim, há um pedacinho de nós que não gostou do bilhete comprado em março e não entrou no avião. E isso também faz parte: pertencemos agora a dois cantos do mundo.

O alarme toca mais tarde (afinal, são férias), mas, quando nos desperta, é para ir criar as memórias que durante os seguintes meses vão servir de alento. De repente, restam 3 dias, estamos a levar uma batata à boca e alguém solta um “então, quando voltas?” e não há ainda uma resposta; “talvez um par de dias antes do Natal, tenho de ver se consigo” e engolimos a dúvida com um restinho do sumo de laranja. Porque, naquele momento, é mais evidente que nunca que a saudade não tem tradução, mas tem tentáculos que abraçam toda uma família. Comemos mais uma colher do tiramisu, ficamos um bocadinho mais antes de ir deitar, metemos na mala mais um enchido e prolongamos os abraços uns segundos. A avó parece emocionar-se mais que o avô, mas o avô não sabe que nós já reparámos que ele fica caladinho e que o “vai com Deus” lhe sai embargado.

Agosto é família, verão, noites quentes, risada até tarde, jogos de tabuleiro e sidra fresca na esplanada. É reencontro. É matar as saudades – dos nossos, das memórias de que somos feitas e da versão que podemos sempre ser quando voltamos. Meu querido mês de agosto, trago sorrisos no rosto, porque sei que vou voltar.

#GlitterUpYourLife