Durante muito tempo, a menopausa foi vivida em silêncio, entre sintomas desvalorizados e uma sensação de perda de identidade. Agora, começa a inspirar viagens e retiros pensados para informar, cuidar e criar comunidade entre mulheres que atravessam a mesma fase.
Os retiros de bem-estar já não se resumem a escapadinhas de ioga, meditação ou desintoxicação digital. À medida que a conversa sobre a menopausa ganha visibilidade, multiplicam-se os programas dedicados às transformações físicas e emocionais que acompanham esta etapa da vida.
A tendência já foi identificada pelo Global Wellness Institute, que incluiu a “revolução da menopausa” entre as grandes transformações do turismo de bem-estar. Por todo o mundo, hotéis, resorts e espaços rurais começaram a criar experiências que combinam descanso, exercício, alimentação, partilha e acompanhamento especializado.
Muito mais do que uma escapadinha
Ondas de calor, alterações de humor, cansaço, dificuldades de sono, dores articulares e falta de concentração são apenas alguns dos sintomas associados à perimenopausa e à menopausa. Mas a mudança ultrapassa frequentemente o plano físico.
Esta pode coincidir com a saída dos filhos de casa, alterações profissionais, o cuidado de familiares mais velhos ou a necessidade de voltar a perceber quem se é depois de décadas a responder às necessidades dos outros.
É neste contexto que os retiros ganham relevância. Mais do que prometer soluções rápidas, oferecem alguns dias fora da rotina, num ambiente em que as participantes podem falar abertamente, ouvir outras experiências e dedicar tempo ao próprio corpo sem constrangimentos.
A dimensão coletiva é uma das principais diferenças em relação a uma estadia convencional num spa. Quando várias mulheres descobrem que partilham sintomas, medos e dúvidas semelhantes, aquilo que parecia um problema individual deixa de ser vivido em isolamento.
De Portugal para o mundo
A oferta internacional já inclui programas muito distintos. Alguns aproximam-se do universo clínico, com avaliações de saúde e consultas sobre terapêutica hormonal. Outros seguem uma abordagem mais holística, reunindo exercício físico, sono, nutrição, massagens, meditação e workshops sobre as mudanças do corpo.
Em Portugal, um exemplo desta nova forma de olhar para o bem-estar feminino é o PLENA – Retiro Feminino no Solstício de Verão, realizado no Moinho do Maneio, junto à Ribeira da Bazágueda, em Penamacor. Criado por Anabela Martins, terapeuta sistémica e proprietária do alojamento, e por Sílvia Cardinha, fisioterapeuta, o projeto é dirigido a mulheres com mais de 40 anos. Nasceu da experiência das próprias fundadoras e da vontade de contrariar a ideia de que esta etapa é definida apenas pelas dificuldades da menopausa ou por uma suposta perda de valor.
Ao longo de três dias, o programa reúne conversas, Pilates, caminhadas, meditações guiadas e momentos musicais. O cenário natural também faz parte da experiência: várias atividades decorrem ao ar livre e uma das propostas passa por uma imersão sonora, com as participantes a flutuar em colchões na ribeira enquanto ouvem um concerto conduzido por um musicoterapeuta. O objetivo não é apenas aliviar o cansaço, mas dar às participantes espaço para reconhecerem o percurso feito, recuperarem o seu lugar enquanto mulheres e encararem a maturidade como uma fase de possibilidade, em vez de um processo de desaparecimento.
Cuidado, conhecimento e comunidade
O crescimento destes retiros acompanha uma transformação maior no turismo. As viagens associadas ao bem-estar representam uma fatia cada vez maior do bolo global do turismo. Ainda assim, um retiro não substitui uma avaliação médica nem deve apresentar-se como tratamento para sintomas que exigem acompanhamento profissional. O seu valor está noutro lugar: na pausa, na informação, no movimento, na escuta e no encontro com outras mulheres.
Essa é a combinação que explica o crescimento da tendência. Durante demasiado tempo, pediu-se às mulheres que atravessassem a menopausa discretamente, como se nada estivesse a acontecer. Estes retiros propõem o contrário: falar, compreender, partilhar e celebrar uma fase da vida que merece ser vivida com mais conhecimento e muito menos silêncio.
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