Há um dia, todos os anos, em que o verão não chega de forma oficial mas chega de forma real. Não é o solstício, não é a primeira semana de julho, não é quando fecham as escolas. É um dia qualquer de junho em que abres a janela de manhã e o ar tem um cheiro diferente, e percebes imediatamente, antes de estar completamente acordada, que alguma coisa mudou.
O verão não pede licença para entrar mas também não invade. Instala-se devagar, como um hóspede que sabe que vai ficar e por isso não tem pressa de desempacotar. Um dia há luz até às nove da noite e já ninguém se lembra de como era escurecer às seis. Um dia começas a comer fora, na esplanada, mesmo quando não está assim tão quente, só porque o sol ainda está lá e parece um desperdício não aproveitar. Um dia as conversas ficam mais longas porque ninguém quer ser o primeiro a dizer que tem de ir.
Gosto muito do início do verão porque ainda não está gasto. Ainda tem tudo por acontecer. As viagens ainda não foram feitas, as noites ainda não foram vividas, os encontros ainda não aconteceram. Há uma promessa suspensa no ar de junho que julho e agosto vão inevitavelmente cumprir ou desiludir, mas que por agora existe intacta, como um presente que ainda não foi aberto.
É também a altura em que as pessoas ficam mais bonitas, como já disse antes e continuarei a dizer porque é verdade. Não é vaidade nem meteorologia, é qualquer coisa mais subtil: as pessoas andam mais devagar, com menos camadas de roupa e menos camadas de tensão. Sentam-se nas esplanadas como se tivessem tempo, mesmo quando não têm. Sorriem para estranhos com uma facilidade que o inverno não permite. O sol faz isso às pessoas: lembra-lhes que existe um corpo, que esse corpo quer estar ao ar livre, que nem tudo é urgente.
Eu sei que o verão tem os seus defeitos. Fica quente demais, fica cheio demais, fica caro demais. As cidades enchem de turistas e esvaziam de silêncio. Os preços dos voos sobem e a paciência desce. Há filas, há tráfego, há noites que não arrefecem o suficiente para dormir bem. Conheço tudo isso e continuo a não conseguir resistir.
Porque o verão tem uma coisa que nenhuma outra estação tem: a sensação de que o dia ainda não acabou mesmo quando já são horas de acabar. Essa luz das sete da tarde que torna tudo mais dourado, mais lento, mais parecido com uma fotografia analógica. Essa hora de nada que acontece entre o trabalho e o jantar, quando se pode simplesmente estar sentada algures com um copo de qualquer coisa fria e não ter de fazer absolutamente nada de produtivo.
No inverno, essa hora não existe. Toda a gente corre para casa quando escurece. No verão, essa hora é sagrada.
O verão começou. São horas de aproveitá-lo.
#GlitterUpYourLife