Descansar é importante, claro. Mas as férias também podem ser uma oportunidade para interromper padrões automáticos, perceber aquilo que nos faz realmente bem e criar pequenos hábitos capazes de sobreviver ao regresso ao trabalho. Adelino Cunha, CEO da I HAVE THE POWER, propõe dez exercícios para começar já.
Passamos grande parte do ano a reagir: respondemos a emails, resolvemos problemas, cumprimos horários e avançamos para a tarefa seguinte. Quando chegam as férias e esse ruído diminui, podem surgir perguntas que durante o resto do ano ficam escondidas entre compromissos.
Consigo estar bem sem fazer nada? Preciso de estar constantemente ocupado? Sei aproveitar verdadeiramente o presente? Estou sempre ansioso pelo dia seguinte?
Segundo Adelino Cunha, CEO da I HAVE THE POWER, o primeiro Sistema Integrado de Formação Contínua em Excelência Pessoal de Portugal, atualmente composto por cinco academias e com trabalho que já chegou a mais de 80 países, é precisamente esta pausa que pode ser usada para perceber melhor os nossos padrões.
“As férias acabam por revelar quem somos quando deixamos de ‘sobreviver’”, explica. Para o especialista, responsável pela Certificação de Happiness Manager, estes períodos podem funcionar como um laboratório onde experimentamos uma nova versão de nós próprios.
E há dez formas práticas de começar.
1. Fazer um “detox de queixas”
O desafio é passar 24 horas sem reclamar, criticar, culpar ou falar negativamente de alguém. Não para fingir que está tudo bem, mas para perceber quantas vezes a queixa aparece sem que procuremos uma solução.
Sempre que surgir vontade de reclamar, Adelino Cunha sugere três perguntas: posso mudar isto? Então devo agir. Posso comunicar isto? Então devo conversar. Não posso controlar isto? Nesse caso, devo decidir quanto espaço mental lhe quero dar.
No final, a reflexão é simples: quantas das queixas estavam relacionadas com problemas reais e quantas eram apenas hábitos mentais?
2. Fazer 30 minutos de silêncio, mas com uma missão
Sem música, telemóvel, televisão, podcast ou qualquer outro estímulo externo.
A proposta não é simplesmente “não fazer nada”, mas observar para onde vai a mente quando ninguém está a disputar a nossa atenção.
Que pensamentos aparecem repetidamente? Existe alguma preocupação que temos evitado? O cérebro procura imediatamente alguma coisa para fazer? Conseguimos estar connosco sem necessidade de distração?
No final dos 30 minutos, a sugestão é escrever as três coisas que mais ocuparam a mente.
3. Perguntar todos os dias: “O que me fez sorrir hoje?”
Todas as noites, identificar três momentos concretos em que nos sentimos bem, mesmo que tenham sido pequenos.
Depois de alguns dias, procurar padrões. Aconteceu quando estávamos com alguém? Sozinhos? Na natureza? Quando aprendemos alguma coisa? Quando não tínhamos horários? Quando fizemos exercício?
Ao identificar padrões de felicidade, torna-se possível depender menos do acaso para voltar a criar essas situações.
4. Experimentar alguma coisa que provoque um pouco de desconforto
Pode ser fazer surf, realizar uma atividade sozinho, iniciar uma conversa, fazer um trilho, ir a um restaurante sem companhia ou aprender algo completamente novo.
A intenção não é procurar desconforto pelo desconforto, mas quebrar o piloto automático e criar pequenas provas de capacidade.
Depois, perguntar: o que descobri sobre mim que não teria descoberto se tivesse escolhido apenas aquilo que já conheço?
5. Criar um “inventário da felicidade”
Dividir uma folha em duas colunas: DÁ-ME ENERGIA | RETIRA-ME ENERGIA.
E preencher sem pensar apenas em pessoas. Podem entrar rotinas, ambientes, conversas, trabalho, redes sociais, compromissos, hábitos, atividades e relações.
Depois surge a pergunta mais difícil: porque continuo a dar tanto espaço àquilo que sei que me esgota?
A proposta é escolher uma coisa para aumentar e uma para reduzir quando as férias terminarem, transformando aquilo que sabemos sobre nós próprios em escolhas conscientes.
6. Escrever uma carta para o “eu” de dezembro
Imaginar que chegámos a 31 de dezembro orgulhosos da forma como vivemos os últimos meses.
Em vez de escrever apenas objetivos como “quero emagrecer”, “ganhar mais” ou “viajar”, pensar nas decisões que tomámos, naquilo que deixámos de tolerar, nos momentos em que fomos mais corajosos, naquilo a que dissemos “não” e começámos a dizer “sim”, no hábito que mudou silenciosamente os nossos dias e na versão de nós próprios que ficou para trás.
E terminar a carta com uma frase: “Para me tornar esta pessoa, quando regressar das férias devo começar por…”
7. Passar um dia inteiro sem redes sociais
Antes de começar, verificar o tempo médio diário passado nas redes.
Depois, observar quantas vezes pegamos automaticamente no telemóvel, em que momentos sentimos mais vontade de abrir uma aplicação e se essa vontade surge por tédio, hábito, curiosidade ou necessidade de estímulo.
Também vale perceber o que fizemos com o tempo que normalmente passaríamos online e se o dia pareceu passar mais devagar.
A pergunta final proposta pelo especialista é: “Quando deixou de observar a vida dos outros, gostou mais da sua?”
8. Trocar consumo por criação
Nas férias consumimos séries, vídeos, reels, restaurantes, compras, notícias e entretenimento. A proposta é reservar uma hora para produzir alguma coisa que antes não existia.
Escrever, desenhar, fotografar, tocar um instrumento, cozinhar uma receita nova, aprender algumas frases numa língua estrangeira, criar um álbum da viagem ou construir alguma coisa são algumas das possibilidades.
Não precisa de ser útil, bonito ou publicável. Aliás, a ideia é precisamente não publicar.
Criar sem precisar da aprovação de ninguém pode ajudar a recuperar prazer, curiosidade e autonomia.
9. Praticar gratidão sem cair no automático
Em vez de escrever simplesmente “sou grato pela família, saúde e amigos”, procurar micro-momentos concretos.
“Hoje senti-me bem quando tomei café ao sol sem olhar para o relógio.”
“Gostei da conversa que tive ao jantar.”
“Ri-me genuinamente quando…”
Depois, acrescentar outra pergunta: o que fiz ou aconteceu para este momento existir?
Segundo Adelino Cunha, esta reflexão ajuda a perceber quais são as condições que favorecem o nosso bem-estar e transforma a gratidão num mapa daquilo que queremos repetir.
10. Escolher UM hábito para levar das férias
Provavelmente, a parte mais importante: regressar com uma decisão e não apenas com uma intenção.
A sugestão é escolher um único comportamento das férias que tenha melhorado genuinamente os nossos dias.
“Quero continuar a caminhar” é demasiado vago. “Às terças e quintas, depois do trabalho, vou caminhar durante 30 minutos” transforma-o numa decisão concreta.
Depois, fazer o teste: é suficientemente pequeno para conseguir mantê-lo mesmo numa semana difícil?
Se não for, é preciso reduzir. O objetivo não é transportar uma versão idealizada das férias para a rotina, mas encontrar uma pequena parte dessa vida que consiga sobreviver à realidade.
A ideia não é regressar uma pessoa completamente diferente
As férias não precisam, portanto, de se transformar noutro projeto a cumprir. A proposta passa por aproveitar a pausa para observar padrões, experimentar comportamentos diferentes e perceber aquilo que queremos levar connosco quando os emails, os horários e as obrigações regressarem.
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