Porque é que toda a gente parece emocionalmente indisponível

Há uma razão para quase toda a gente parecer emocionalmente indisponível hoje em dia: o ato de sentir tornou-se embaraçoso. Todos querem amar, todos querem ser escolhidos, mas ninguém quer ser visto como aquele que sente demais. Queremos parecer indiferentes, inalcançáveis e intocáveis mas na minha opinião o “emocionalmente indisponível” é um nome bonito que inventaram para descrever o narcisismo contemporâneo.

Existem dois grandes culpados para a nossa incapacidade de amar, e criar qualquer tipo de intimidade real, nos dias que correm: os traumas e a obsessão com nós mesmos. Queremos ser desejadas mas não nos queremos envolver demais, muitos chamam a isto de mecanismo de defesa – eu chamo-lhe cobardia.

Vemos relações construídas com base em estratégias: quem demonstra menos interesse ganha, quem responder mais tarde parece superior. Mas desde quando é que o romance deixou de ser sobre conexão e passou a ser sobre poder?

Criou-se um erotismo cultural associado a este desapego. Quanto mais frios e difíceis mais interessantes somos, e é esta a receita para criarmos uma geração que é incapaz de comunicar aquilo que sente com medo de parecer “demasiado”. É assim que se criam relações ocas, superficiais e sem qualquer tipo de profundidade.

Deixamos de dizer o que queremos e o que sentimos, porque “se ele quisesse, fazia”, mas esquecemos-nos que ninguém nasce com uma bola de cristal, parece que procuramos constantemente uma validação para depois fingirmos que não precisamos dela para nada.

Esta auto-consciência coletiva matou a espontaneidade. Já não fazemos por fazer, não existe o “deixar fluir e ver onde vai dar”. Vivemos rodeados de análises exaustivas acerca de tudo e de todos à nossa volta, de comparações e performances: fazemos tudo para parecer bem aos olhos dos outros, mesmo que isso signifique não estarmos bem connosco próprios.

Por isso, e peço desculpa por ter de ser eu a dizer-vos, mas não, vocês não estão emocionalmente indisponíveis, estão com medo: medo da rejeição, da vulnerabilidade do abandono. Vivemos no mundo mais conectado de sempre, mas estamos cada vez menos conectados uns com os outros. As epidemias de solidão crescem todos os dias, porque mais vale parecer cool do que admitir que precisamos de alguém.

Talvez o maior plot twist da cultura contemporânea seja este: a geração mais obcecada com amor próprio criou pessoas incapazes de amar os outros. Todos queremos ser escolhidos, mas Deus nos livre escolher alguém.

Artigo por Rita Pinto Da Silva 
#TheGlitterDream