Quando os sogros se tornam um problema do casal

O que fazer quando as fronteiras familiares ameaçam o seu casamento?

Em consulta, deparo-me frequentemente com pessoas em que a relação com os sogros se torna uma fonte de conflito persistente, muitas vezes sem que ninguém perceba bem como chegaram até ali. É um padrão que reconheço facilmente: no início do relacionamento tudo corria bem com os sogros, havia harmonia, havia afeto, havia a sensação reconfortante de ter entrado numa família que nos acolheu. Depois algo muda. Podem ser comentários sobre escolhas de vida, sobre a carreira, sobre o corpo, sobre a forma como se gere a casa. Podem ser visitas sem hora marcada, opiniões não pedidas ou a sensação constante de estar a ser avaliada. E de repente, o que era uma relação calorosa passa a ser uma fonte de ansiedade diária.

O que torna esta situação especialmente difícil é que raramente é simples. Há afeto genuíno envolvido, de parte a parte. Há histórias partilhadas, há gratidão, há laços reais. E é precisamente por isso que os limites se tornam tão difíceis de impor: porque impor um limite a alguém de quem gostamos pode parecer um ato de rejeição, quando na verdade é um ato de cuidado. Os problemas com os sogros são, no fundo, sempre problemas do casal. A dinâmica triangular é inevitável, e só se resolve a dois.

Porque é que isto acontece?

As razões pelas quais os sogros interferem são variadas. Algumas pessoas não têm consciência de que estão a ser invasivas; acreditam genuinamente que estão a ajudar, ou que a proximidade afetiva dispensa a contenção. Confundem intimidade com ausência de limites: quanto mais se gosta, menos se sente necessidade de conter o que se diz ou faz.

Há ainda outros fatores comuns como dificuldade em lidar com o envelhecimento e a perda de papel central na família, solidão que se colmata com o excesso de envolvimento na vida dos filhos ou uma necessidade de afirmar autoridade num momento em que sentem que a estão a perder. E quando existem dinâmicas de dependência (financeira, habitacional ou de outro tipo) a complexidade aumenta ainda mais. É difícil impor limites a quem nos deu algo significativo, mas a gratidão não pode ser uma razão para abdicar da autonomia.

O papel central do parceiro

Uma das fontes de maior dor nestes cenários não são os sogros em si, é sentir que o parceiro não nos defende. Que escolhe a paz em família em detrimento do nosso bem-estar, que fala, mas não age e que reconhece o problema, mas não o resolve.

O que recomendo em consulta é que o casal comece por ter uma conversa diferente entre si, uma que não se centre em acusações, mas em aliança. Antes de qualquer confronto com os sogros é preciso estar alinhado enquanto casal. Isso implica empatia e clareza: o casal tem de decidir junto o que aceita e o que não aceita e como vai comunicar isso.

O que pode fazer

Algumas abordagens práticas:

  1. Fale com o seu parceiro antes de qualquer confronto com os sogros. Apresentem-se como equipa, não como adversários. “Nós decidimos” tem um peso completamente diferente de “eu quero”.
  2. Defina os limites com clareza e com antecedência. Visitas combinadas, temas que não estão abertos à opinião de terceiros, decisões que pertencem ao casal. Quanto mais claros forem os limites, menos espaço há para ambiguidade.
  3. Comunique com afeto mas com firmeza. Não é uma acusação, é uma informação. A diferença de tom muda tudo na forma como a mensagem é recebida.
  4. Deixe claro que há consequências quando os limites são ignorados. Dito com calma, sem drama, mas tem de ser dito e vivido. A consistência é o que transforma um pedido numa realidade.
  5. Procure apoio terapêutico se necessário. Quer individualmente, quer em casal. Muitas vezes, estas dinâmicas ativam feridas antigas, padrões da nossa própria infância que nos tornam mais vulneráveis ao conflito intergeracional.

A herança da infância

Importa sublinhar que quando crescemos em casas onde os conflitos com os sogros eram frequentes ou onde erámos vítimas de pessoas altamente dominantes, tornamo-nos especialmente sensíveis a esta dinâmica. O medo de repetir o que vivemos pode levar-nos a fazer escolhas que nos parecem seguras, mas que não nos protegem do inevitável. As relações humanas têm conflitos, todas elas. A questão não é se vai haver desacordo. A questão é: quando houver, como se resolve?

Construir uma relação saudável implica aprender a separar o que é seu do que é dos outros. Implica ter a coragem de dizer “isto não funciona para nós” mesmo quando é desconfortável, mesmo quando há gratidão envolvida, mesmo quando o amor é genuíno. Impor limites não é um ato de rejeição, mas sim de respeito por si, pelo casal, e pela família que estão a construir.

Artigo por Inês Costa Maia

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