Dos ovos gigantes que nunca tivemos à caça que vai acontecer pela primeira vez, esta crónica é sobre rituais, presença e o que fica.
Há uma pergunta que me persegue todos os anos nesta altura: o que é, afinal, a Páscoa? Não a religiosa, não a das montras cor-de-rosa. A que acontece mesmo, com cheiro a alecrim e vozes sobrepostas e o calor de uma cozinha em dia de festa.
Na minha família, a Páscoa sempre chegou à mesa antes de chegar à conversa. O coelho ou o borrego, dependendo do ano, do humor da pessoa que cozinha, do que há no talho ou do que o vizinho dispensa, traz consigo um conjunto de rituais silenciosos mas rigorosos: quem senta onde, quem serve primeiro, quem comenta o ponto da carne. A mesa é o centro. As palavras aparecem à volta dela, organicamente, como se fosse ali que toda a gente soubesse melhor falar.
Eu e os meus irmãos crescemos sem a Páscoa comercial que os nossos amigos tinham. Não chegavam caixas enormes embrulhadas em papel brilhante, não havia aquele ovo de chocolate que parecia quase obscenamente grande. Não estreávamos roupa. Não recebíamos prendas. Durante anos achei que estava a perder qualquer coisa, que a nossa Páscoa era menos do que a dos outros.
Mas havia sempre presença. Todos ali. A mesma mesa, as mesmas histórias contadas como se fossem novas, o mesmo debate sobre se o borrego estava melhor este ano ou no ano passado. Havia o barulho específico daquele domingo. Havia o tempo, que parava um bocadinho.
Falar com pessoas sobre a Páscoa é perceber como cada família inventou a sua própria gramática. Há casas onde o ritual principal é a missa da madrugada, o silêncio coletivo antes do amanhecer. Há casas onde é o folar, não comprado, feito em casa, com as mãos de alguém mais velho que não explica a receita porque nunca a escreveu. Há casas em que a tradição é acordar cedo e esconder ovos de chocolate pelo jardim, ou pela sala, e fingir que foi o coelho da Páscoa, mesmo quando os filhos já têm doze anos e sabem que não foi.
Há casas em que a Páscoa é o único momento do ano em que certos familiares se vêem. Há casas em que é o fim de semana em que alguém regressa, de outra cidade, de outro país, de uma vida que ficou algures longe. O ritual não é a comida nem o chocolate: é o regresso em si.
E há casas como a minha, onde a Páscoa foi sempre sobretudo conversa. Conversas que começam com o tempo e acabam em política, ou ao contrário. Conversas que ninguém planeou mas que ficam, aquela coisa que a avó disse, aquela vez em que alguém chorou de rir por uma razão que já ninguém recorda bem.
Este ano, algo novo
Este ano há uma novidade que me apanha desprevenida: a minha avó vai fazer, pela primeira vez, uma caça aos ovos para os bisnetos. Para aqueles miúdos que são a geração seguinte desta mesma mesa.
Estou ansiosa por esse momento de uma forma que não sei bem explicar. Talvez porque é a avó a reinventar-se, a criar, aos seus 86 anos, um novo ritual para alguém que ainda vai construir as memórias de Páscoa que vai carregar a vida inteira. Talvez porque é a prova de que os rituais não nascem prontos: crescem, mudam, adaptam-se às pessoas que os vivem.
Aqueles bisnetos não vão saber que é a primeira vez. Para eles vai ser simplesmente a Páscoa, aquela em que a bisavó escondeu ovos e eles correram atrás. Daqui a vinte anos, talvez seja isso que se lembrem. Talvez seja isso que queiram repetir.
É assim que funciona, afinal. Uma família não herda rituais, constrói-os. Às vezes de forma consciente, às vezes por acidente, às vezes porque alguém um dia disse e se fizéssemos assim? e ninguém disse que não e passou a ser sempre assim.
Os ovos gigantes que nunca tivemos não fizeram falta. Ficaram as conversas. Ficou a mesa. Ficou o borrego. E agora fica também uma caça, nova, improvável, deliciosa.
#GlitterUpYourLife