Palavras que só o português sabe dizer

Há palavras que são mundos inteiros comprimidos em quatro sílabas. O inglês tem “untranslatable” para as descrever e nós temos um dicionário cheio delas. Estas são as que mais nos definem, as que os outros tentaram traduzir e não conseguiram, e que ainda bem que não conseguiram.

Saudade (substantivo feminino)

A mais famosa. A mais nossa. A mais impossível.
Já tentaram traduzir como longing, como nostalgia, como yearning. Nenhuma chega perto. Saudade não é só falta de alguém, é a presença densa e quente dessa ausência. É sentir alguém que está do outro lado do mundo como se estivesse aqui, e sentir que está longe mesmo quando está ao lado. É a dor que é também carinho. Fernando Pessoa disse que não é bem alegria nem tristeza. E é exatamente isso: é as duas ao mesmo tempo, e mais qualquer coisa que não tem nome em mais língua nenhuma.

Desenrascanço (substantivo masculino)

A arte de se safar com o que há.

Esta é uma palavra que é também uma filosofia de vida, um traço de carácter nacional, quase um superpoder. O desenrascanço é quando o plano A falha, o B também, não havia plano C, e mesmo assim a coisa acontece. É improvisar com talento. É chegar com fita-cola e um clip e sair com uma solução. Os brasileiros têm o jeitinho, que é primo próximo, mas o desenrascanço tem qualquer coisa de orgulho na adversidade, de quem sabe que o mundo não vai cooperar e se preparou para isso de um jeito muito específico: não se preparando nada.

Madrugada (substantivo feminino)

O tempo que a noite não quer deixar ir.

Em inglês, “the early hours of the morning” tem quatro palavras e não tem alma. Madrugada é um estado de espírito. É aquela hora entre a meia-noite e o nascer do sol que pertence a um tipo muito específico de pessoas: os que não conseguem dormir, os que não querem, os apaixonados, os que estão a trabalhar em algo que importa, os que estão a chorar, os que estão a dançar. Madrugada não é de manhã nem de noite. É o seu próprio território.

Saudosismo (substantivo masculino)

Saudade elevada a sistema de crenças.
Se a saudade é o sentimento, o saudosismo é a ideologia. É a tendência, tipicamente portuguesa, dizem os que nos estudam de fora, de olhar para o passado como o lugar onde morava o melhor de nós. É perigoso, às vezes. É lindo, outras. É a razão pela qual temos tanto fado e pouca autoestima colectiva. É acreditar, no fundo, que já fomos maiores e guardar isso com uma ternura que nenhuma língua soube nomear antes de nós.

Desvairadamente (advérbio)

Fazer algo com uma loucura que tem qualidade.
Wildly não é a mesma coisa. Madly chega mais perto mas ainda assim perde qualquer coisa. Desvairadamente tem dentro de si “desvairar”, que é perder o juízo de uma forma que tem drama, tem cadência, tem quase uma elegância. Amar desvairadamente não é só amar muito, é amar de uma forma que perdeu o norte e se orgulha disso. É a palavra que o Pessoa usaria. É a palavra que está no título de um dos poemas mais bonitos da língua: Amar é desvairar.

Aperto (substantivo masculino)

Aquilo que se sente no peito quando as palavras não chegam.
Tecnicamente, aperto é apertado. Uma situação difícil. Uma dificuldade financeira. Mas quando alguém diz “sinto um aperto no peito”, está a descrever uma sensação que é física e emocional ao mesmo tempo: uma pressão, uma angústia que não é bem tristeza, uma coisa que está prestes a acontecer ou que já aconteceu e ainda pesa. Tightness in the chest é a tradução clínica. O aperto é a versão que sente.

Desencontro (substantivo masculino)

Quando duas pessoas quase se encontram, e esse quase dói.
Há um filme inteiro nesta palavra. Desencontro não é o oposto de encontro, é mais subtil do que isso. É chegar cinco minutos depois, é amar na altura errada, é estar na mesma cidade sem se cruzar, é querer a mesma coisa em momentos diferentes. O inglês tem missed connection, que é bonito mas é circunstancial. O desencontro é existencial. É uma das palavras mais melancólicas que temos, e mais verdadeiras.

O que estas palavras têm em comum é que cada uma delas é uma janela para um jeito de estar que é nosso. Não foi por acaso que as inventámos. Foi porque precisávamos delas. Porque sentimos estas coisas e não havia mais nenhuma palavra no mundo que chegasse. Então fizemos as nossas.

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