Os reality shows fazem parte do quotidiano de muitas pessoas e, apesar de serem frequentemente vistos como uma forma simples de entretenimento, podem tornar-se surpreendentemente difíceis de abandonar. Algumas pessoas sentem necessidade de acompanhar todos os episódios, procuram constantemente novidades sobre os participantes, seguem as suas redes sociais e sentem que não querem “perder nada” do que está a acontecer. Embora seja importante distinguir entre gostar muito de um programa e desenvolver um comportamento verdadeiramente problemático, existem vários mecanismos psicológicos que ajudam a explicar porque é que os reality shows podem ser tão envolventes.
Um dos principais fatores está relacionado com a curiosidade humana. O nosso cérebro tende naturalmente a procurar informação quando existe algo que ficou por resolver. Nos reality shows, esta característica é explorada através de conflitos, relações amorosas, discussões, segredos, alianças e situações que ficam frequentemente em aberto de um episódio para o outro. Quando uma pessoa fica sem saber como determinada situação vai terminar, cria-se uma espécie de tensão psicológica que aumenta a vontade de continuar a assistir. É semelhante ao que acontece quando começamos a ler uma história e sentimos necessidade de chegar ao fim para descobrir o que aconteceu. No caso dos reality shows, esta curiosidade pode ser reforçada pela forma como os episódios são construídos, deixando frequentemente acontecimentos importantes para o momento seguinte.
Outro aspeto importante é a sensação de proximidade que se pode desenvolver com os participantes. Apesar de não existir uma relação real entre o espetador e as pessoas que aparecem no programa, acompanhar regularmente as suas vidas pode criar aquilo a que, em psicologia, se chama uma relação parasocial. A pessoa começa a sentir que conhece determinado participante: sabe como reage, quais são os seus medos, com quem se dá melhor ou pior e até começa a prever o seu comportamento. Com o tempo, pode surgir uma sensação de familiaridade e ligação emocional. Assim, deixar de acompanhar o programa pode ser sentido, de forma curiosa, quase como deixar de acompanhar alguém que fazia parte da nossa rotina.
Esta ligação emocional também explica porque é que os espetadores podem ficar genuinamente afetados pelo que acontece aos participantes. Podem sentir alegria quando alguém de quem gostam tem sucesso, irritação perante determinado comportamento ou tristeza quando alguém abandona o programa. A identificação tem aqui um papel particularmente relevante. Muitas vezes, reconhecemos nos participantes características, inseguranças ou experiências que nos são familiares. Podemos identificar-nos com alguém que se sente excluído, com uma pessoa que procura aprovação ou com alguém que vive dificuldades nas relações. Essa identificação torna o conteúdo mais pessoal e emocionalmente significativo.
Os reality shows também podem funcionar como uma forma de escape. Na vida quotidiana, as pessoas lidam com trabalho, estudos, responsabilidades, relações, preocupações financeiras e outras fontes de stress. Ver um programa pode proporcionar um período em que a atenção fica temporariamente afastada desses problemas. O espetador entra numa realidade diferente, acompanha os problemas de outras pessoas e, durante algum tempo, não precisa de pensar tanto nos seus próprios. Este efeito não é necessariamente negativo. O entretenimento pode ser uma forma saudável de descansar. O problema surge quando passa a ser uma das principais estratégias utilizadas pela pessoa para lidar com emoções desagradáveis. Se alguém recorre constantemente ao programa para evitar ansiedade, solidão, tristeza ou aborrecimento, pode começar a criar-se um padrão difícil de interromper.
A própria estrutura dos reality shows contribui para este fenómeno. Existem frequentemente recompensas emocionais rápidas: uma discussão inesperada, uma revelação, uma reconciliação ou uma reviravolta podem provocar surpresa, excitação ou satisfação. Estes momentos tornam a experiência imprevisível e fazem com que a pessoa queira continuar a assistir. Quando existe a possibilidade de acontecer algo interessante a qualquer momento, torna-se mais difícil desligar. As redes sociais intensificam ainda mais este processo, uma vez que o programa não termina necessariamente quando acaba o episódio. Existem comentários, vídeos, notícias, teorias e discussões sobre os participantes disponíveis praticamente a qualquer hora.
Também existe uma dimensão social. Falar sobre um reality show pode proporcionar uma sensação de pertença. Quando amigos, familiares ou colegas acompanham o mesmo programa, conversar sobre os acontecimentos, defender um participante ou discutir quem teve razão pode tornar-se uma atividade de grupo. Neste contexto, deixar de acompanhar o programa pode fazer com que a pessoa sinta que está a ficar “de fora” das conversas. O medo de perder alguma coisa, conhecido como FOMO, pode contribuir para que continue a acompanhar mesmo quando já não retira o mesmo prazer da experiência.
É igualmente importante considerar as diferenças individuais. Nem todas as pessoas têm a mesma tendência para desenvolver este tipo de comportamento. Pessoas que estejam a atravessar períodos de maior solidão, stress, insatisfação ou necessidade de distração podem encontrar nos reality shows uma fonte particularmente acessível de companhia e estímulo. Para alguém que se sente sozinho, por exemplo, acompanhar diariamente as mesmas pessoas pode criar uma sensação de rotina e presença. Para outra pessoa, o interesse pode estar sobretudo na competição, no conflito ou na curiosidade. Por isso, não existe uma única razão que explique este comportamento.
Em alguns casos, aquilo que começa como entretenimento pode transformar-se gradualmente num hábito automático. A pessoa chega a casa e liga imediatamente o programa, não necessariamente porque decidiu conscientemente fazê-lo, mas porque aquele comportamento ficou associado àquele momento do dia. Quanto mais vezes se repete, mais natural se torna. Se, além disso, o programa proporciona uma recompensa emocional, o comportamento tende a ser reforçado. É assim que um hábito aparentemente simples pode ocupar cada vez mais espaço na rotina.
Ainda assim, é importante não patologizar o gosto por reality shows. Ver várias horas de um programa durante determinado período, acompanhar intensamente uma edição ou ficar emocionalmente envolvido com os participantes não significa, por si só, existir uma dependência. O mais relevante é perceber o impacto que esse comportamento tem na vida da pessoa. Se começa a interferir com o sono, o trabalho, os estudos, as relações pessoais ou outras atividades importantes, ou se a pessoa sente que não consegue parar mesmo quando gostaria, pode ser útil olhar para o comportamento com maior atenção.
Do ponto de vista psicológico, portanto, a atração pelos reality shows não resulta simplesmente de “falta de controlo”. É o resultado da combinação entre curiosidade, emoção, identificação, necessidade de pertença, procura de distração e formação de hábitos. Estes programas são particularmente eficazes porque conseguem juntar vários destes elementos ao mesmo tempo. Para algumas pessoas, tornam-se apenas uma forma agradável de passar o tempo; para outras, podem assumir uma função emocional mais profunda. Perceber o que se procura quando se liga o programa, diversão, companhia, excitação, distração ou simplesmente uma pausa das preocupações, pode ser mais importante do que tentar eliminar o comportamento. Afinal, muitas vezes, aquilo de que uma pessoa se sente “viciada” não é apenas o programa em si, mas a sensação que consegue obter através dele.
Artigo por Andreia Filipe Vieira, psicóloga
@draandreiavieira