Há conversas que os pais adiam vezes sem conta, à espera do momento perfeito que, convenhamos, nunca chega. A sexualidade é uma delas. Mas a verdade é que não existe uma idade certa para começar, nem um guião ideal a seguir. O que existe são pequenas oportunidades do dia a dia, uma série comentada que está a dar, uma pergunta inocente ao jantar, um post que o adolescente viu nas redes sociais, que podem ser a porta de entrada para conversas que fazem toda a diferença. Falar de sexualidade com os filhos não é uma palestra que se dá uma única vez: é um diálogo contínuo, que vai crescendo à medida que eles crescem.
De bebé a adolescente: cada fase tem a sua linguagem
A forma como as crianças entendem o corpo e a sexualidade muda muito ao longo dos anos, e conhecer essas etapas ajuda a ajustar o tom e a profundidade das conversas. Nos primeiros anos de vida, tudo passa pelo toque, pelo conforto e pela satisfação das necessidades básicas. Por volta dos nove meses, é normal que os bebés explorem o próprio corpo, incluindo os genitais, e isso faz parte de um desenvolvimento completamente saudável.
De acordo com um artigo da Dra. Bárbara Mota para o site lusiadas.pt, entre os três e os seis anos surge uma curiosidade mais ativa pelo corpo próprio e pelo corpo do outro. A manipulação dos genitais por prazer pode ocorrer e não deve ser reprimida nem tornada num momento de vergonha, cabe aos pais contextualizar o espaço e os limites, de forma tranquila e sem dramatismo. É também nesta fase que as crianças começam a construir a sua identidade de género, e esse processo deve acontecer sem imposições, seja nas brincadeiras, nas preferências ou nos papéis que escolhem explorar.
Com a entrada na escola, entre os seis e os dez anos, surgem novos pudores em relação ao corpo e as primeiras amizades mais próximas. É uma fase excelente para introduzir conceitos como privacidade, respeito e limites, usando situações do quotidiano, livros ou mesmo programas de televisão como ponto de partida.
E depois vem a adolescência, entre os dez e os dezanove anos, com tudo o que isso implica: transformações físicas profundas, questões sobre identidade e desejo, primeiras relações e uma distância natural dos pais que pode dificultar a comunicação, mas que não tem de a impossibilitar. É precisamente nesta fase que as conversas sobre contraceção, infeções sexualmente transmissíveis, consentimento e responsabilidade são mais necessárias e mais urgentes.
Como criar o ambiente certo para estas conversas
Antes de pensar no que dizer, vale a pena pensar em como criar as condições para que o diálogo aconteça. Os adolescentes raramente abrem conversas sobre sexualidade do nada e quando não fazem perguntas, isso não significa que não têm dúvidas. Muitas vezes significa que têm receio de ser julgados, ridicularizados ou de causar desconforto. Por isso, o primeiro passo é mostrar, de forma consistente, que o tema não é tabu em casa.
Algumas formas práticas de criar esse ambiente: aproveitar notícias, séries ou situações do dia a dia para tocar no assunto de forma leve, sem forçar uma grande conversa; reagir sem alarmismo quando surgem perguntas inesperadas; e garantir que o jovem sabe que pode voltar ao tema quando quiser, sem que isso resulte num interrogatório. A privacidade e a confiança são fundamentais, pelo que estas conversas não devem acontecer à frente de irmãos ou em momentos de tensão.
Outro aspeto importante é o cuidado com a linguagem. Usar a terminologia correta, mesmo que cause algum desconforto inicial, ajuda a evitar equívocos e a desmistificar tabus. E usar uma linguagem neutra e inclusiva permite que o jovem se sinta à vontade independentemente da sua identidade ou orientação. Se não souber responder a uma pergunta, diga-o com honestidade e proponha procurar a resposta em conjunto. Iisso transmite muito mais confiança do que uma resposta vaga ou inventada.
Quando o filho não fala, o que fazer
O silêncio dos filhos sobre estes temas costuma dizer mais sobre o ambiente do que sobre eles próprios. Se um adolescente não faz perguntas, pode ser útil ser o primeiro a abrir o tema, de forma suave e sem pressão. Frases como “vi uma coisa que me fez pensar em ti, podemos falar?” ou “sei que às vezes estas conversas são estranhas, mas quero que saibas que podes perguntar-me o que quiseres” criam abertura sem forçar. A descontração e até o humor podem ajudar a baixar a guarda, e muitas vezes são os próprios adolescentes que indicam até onde querem ir na conversa, basta estar atento aos sinais.
Se sentir que há barreiras que não consegue ultrapassar, ou que o filho precisaria de falar com alguém de fora da família, uma consulta de adolescente com um profissional de saúde pode ser uma alternativa valiosa. Não como substituição do diálogo em casa, mas como complemento a ele.
A conversa mais importante que pode ter
No fundo, falar de sexualidade com os filhos é um ato de amor. É dizer-lhes que o corpo deles importa, que os sentimentos deles são válidos e que não estão sozinhos a navegar um mundo que, com as redes sociais e o acesso ilimitado à informação, pode ser bastante confuso. Os jovens que crescem com este diálogo aberto em casa têm mais facilidade em tomar decisões conscientes, em reconhecer relações saudáveis e em pedir ajuda quando precisam. E isso, no final, é exatamente o que qualquer pai ou mãe deseja para os filhos.
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