Quando somos mães, até onde vai a entrega e onde começa o nosso espaço?

Há uma pergunta que me acompanha desde que fui mãe e que, curiosamente, não me pesa tanto quanto antes: até que ponto é suposto anularmo-nos quando temos filhos? O meu tem três anos. Já tem opiniões, preferências e uma energia inesgotável. E eu, no meio desta dança diária entre amor, trabalho e cansaço, começo a perceber que talvez a maternidade não seja sobre desaparecer, mas sobre aprender a ocupar um lugar diferente.

Durante muito tempo achei que ser boa mãe implicava colocar-me sempre em último lugar. Como se isso fosse um sinal de dedicação máxima. E, sim, há fases em que o foco é quase todo neles. Mas também há algo de libertador em perceber que essa entrega não precisa de ser sinónimo de anulação. Que cuidar não é abdicar de existir.

A maternidade trouxe-me muitas perguntas, mas também me ensinou a escolher melhor. A valorizar o tempo. A perceber que querer mais do que um papel não me torna menos mãe, torna-me mais inteira. A culpa ainda aparece, claro. Mas já não manda tanto.

Também há humor nisto tudo. Há algo de irónico em passar anos a construir uma identidade e, de repente, ser conhecida como “a mãe do”. Há ironia em negociar cinco minutos de silêncio como se fossem luxo. Há ternura em ouvir “mãe” repetido vinte vezes por minuto e, ainda assim, sorrir. Há dias caóticos, mas também há outros em que tudo parece fazer sentido, mesmo sem estar perfeito.

Acredito que não nos anulamos (ou, pelo menos, não deveríamos). Transformamo-nos. Ajustamos. Redefinimos prioridades. E, aos poucos, vamos descobrindo versões de nós que não sabíamos que existiam. Algumas mais cansadas, outras mais fortes. Algumas mais pacientes, outras surpreendentemente criativas.

Talvez a maternidade não peça que deixemos de ser quem somos, mas que aprendamos a ser muitas coisas ao mesmo tempo. Mãe, mulher, profissional, pessoa. Nem sempre em equilíbrio perfeito, mas em movimento constante.

O meu filho tem três anos. Eu continuo a crescer com ele. E hoje a pergunta já não é se me devo anular, mas como posso continuar a existir plenamente enquanto o acompanho a crescer. E talvez essa seja uma das partes mais bonitas deste caminho.

#GlitterUpYourLife