Retrospectiva de final de ano: entre o que fomos e o que ainda não sabemos ser

por Margarida Menino Ferreira

O fim de ano tem esta estranha mania de nos pedir contas. Obriga-nos a pensar sobre o que fomos, o que conquistamos e para onde queremos ir. Mas a verdade é que a maioria de nós chega aqui sem respostas, apenas cansada, um pouco mais velha e cheia de pensamentos que não cabem em listas.

Há um espaço vazio entre o final de um ano e o começo de outro. Nesse intervalo, sentimos mais. Não necessariamente alegria, mas uma mistura de nostalgia, alívio e medo. Rever fotografias antigas para fazer uma compilação bonita para o Instagram pode ser um exercício estranho. Relembramos momentos que pareciam tanto e hoje não têm espaço na legenda. Pessoas que perdemos pelo caminho. Perguntamo-nos quando é que tudo passou tão depressa. 

Fala-se muito de resoluções de ano novo, mas pouco do cansaço. Pouco do peso de um ano vivido intensamente, mesmo quando não foi sempre bonito. Pouco da coragem que foi precisa para aguentar. Sobrevivemos a dias difíceis, a decisões mal tomadas. E nem sempre nos damos o devido crédito por isso. 

Nunca fiz uma lista de resoluções. Mas, nos últimos anos, sinto que entrar num novo ano sem um plano claro parece quase um fracasso social. Como se fosse obrigatório saber exatamente o que queremos, quem queremos ser, onde queremos chegar. Não haverá uma beleza discreta em não saber? Em permitir que o próximo ano seja um espaço em branco, e não mais uma lista de expectativas impossíveis?! Retirar essa pressão de cima dos ombros parece-me um exercício de autocuidado. Não tendo grandes expectativas, a desilusão de não as cumprir não será tão grande. Acho. Espero. 

Talvez não precisemos de nos reinventar a cada janeiro. Talvez baste continuar. Continuar a aprender, a errar, a mudar de ideias. Continuar a ser gente, mesmo quando isso implica incerteza. No fundo, o fim de ano não é sobre fechar tudo em caixas organizadas. É sobre aceitar que somos feitos de processos inacabados. Que algumas perguntas vão connosco para o próximo ano. Que há sonhos que precisam de mais tempo. 

Quando o relógio marcar meia-noite, talvez o melhor brinde não seja ao sucesso, nem às promessas grandiosas. Talvez seja à coragem silenciosa de continuar a caminhar, mesmo sem mapa. Porque entre o que fomos e o que ainda não sabemos ser, existe vida, existimos nós. E isso, por si só, já é motivo para celebrar.

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