“Wannabe” faz 30 anos: o hino pop que nos ensinou a escolher as amigas primeiro

Bastam os primeiros segundos para acontecer qualquer coisa. Alguém aumenta o volume, outra pessoa começa imediatamente a cantar e, de repente, mulheres que talvez nem se conheçam estão a completar a letra umas das outras. Trinta anos depois, Wannabe, das Spice Girls, continua a ter esse poder raro: transformar uma sala cheia de desconhecidas numa reunião improvisada de melhores amigas.

Lançada em 1996, a canção apresentou ao mundo Mel B, Mel C, Emma Bunton, Geri Halliwell e Victoria Beckham e tornou-se rapidamente um dos maiores fenómenos da história da música pop. O refrão era irresistível, o videoclipe parecia uma festa onde ninguém tinha pedido autorização para entrar e a estética era uma mistura caótica de plataformas, fatos de treino, vestidos curtos, animal print e muita personalidade.

Mas aquilo que parecia apenas uma canção divertida escondia uma mensagem mais interessante. Wannabe começava como uma típica música sobre um romance, mas depressa deixava claro que qualquer candidato a namorado teria primeiro de respeitar as amigas. “If you wanna be my lover, you got get with my friends”. O rapaz nunca era o centro da história. A amizade feminina, sim.

Para muitas raparigas dos anos 90, foi uma primeira aproximação ao conceito de girl power, mesmo antes de saberem explicar o que significavam palavras como feminismo, representação ou independência. As Spice Girls mostravam que não existia apenas uma forma de ser mulher. Podíamos ser desportivas, românticas, irreverentes, glamorosas ou todas essas coisas ao mesmo tempo e não era preciso diminuir a personalidade para sermos aceites.

Até os looks ajudavam a contar essa história. Na gravação do videoclipe de Wannabe, as próprias escolheram e compraram a roupa, construindo imagens diferentes umas das outras. Em vez de surgirem como uma girl band perfeitamente uniformizada, pareciam cinco amigas com estilos, atitudes e energias distintas. Cada fã podia escolher a sua Spice favorita ou mudar de identidade conforme o dia.

Claro que as Spice Girls também foram um enorme produto comercial. Houve bonecas, mochilas, perfumes, lancheiras e uma máquina de merchandising praticamente impossível de evitar. Mas reduzir o grupo apenas a uma estratégia de marketing seria ignorar o impacto emocional que teve numa geração. O marketing pode explicar as vendas, mas não explica porque é que três décadas depois ainda sabemos as coreografias, discutimos quem era a nossa Spice e paramos tudo quando a música começa a tocar.

Wannabe ultrapassou fronteiras, chegou ao topo das tabelas em vários países e acumula hoje mais de mil milhões de reproduções nas plataformas digitais. A sua influência também continua visível em artistas como Dua Lipa, Taylor Swift ou Charli XCX, que cresceram num mundo pop que as Spice Girls ajudaram a transformar.

O aniversário reacendeu ainda os eternos rumores de um reencontro. O grupo não atua completo desde a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e embora as integrantes já tenham admitido conversar sobre uma possível celebração dos 30 anos, ainda não existe confirmação de um regresso aos palcos.

Enquanto esperamos, podemos sempre fazer o teste definitivo: colocar Wannabe a tocar numa festa, num casamento, no carro ou na cozinha. Em poucos segundos, alguém vai começar a cantar. Outra pessoa vai responder. E durante três minutos seremos novamente crianças, com microfones imaginários e a convicção absoluta de que as amigas vêm primeiro.

Trinta anos depois, talvez seja isso que ainda queremos. O que realmente, realmente queremos.

#GliterUpYourLife