Cozinhas de madeira, mesas minúsculas, cestos de legos e carrinhos estacionados junto ao sofá. Em algum momento, a sala deixou de pertencer apenas aos adultos e transformou-se também num quarto de brincar.
Quem cresceu nos anos 80 ou 90 provavelmente se lembra de uma regra mais ou menos clara: os brinquedos ficavam no quarto. Podíamos levar uma boneca para a sala, montar um puzzle no chão ou espalhar carrinhos durante a tarde, mas, no final, tudo voltava ao lugar, arrumado por nós ou, sejamos honestos, pelas nossas mães.
A sala era o território dos adultos. Tinha o sofá “bom”, a mesa de centro que não servia para brincar e uma televisão cuja programação raramente era escolhida pelas crianças. Mesmo quando existia um quarto de brinquedos, era nesse espaço que se concentrava o caos infantil. A casa parecia dividida por funções: os adultos conviviam na sala; as crianças brincavam no quarto.
Hoje, basta entrar numa casa com filhos pequenos para encontrar uma realidade diferente. Uma cozinha de brincar encostada à parede, uma mesa infantil junto à janela, livros guardados em prateleiras baixas, um tapete de atividades junto ao sofá e vários cestos que tentam disfarçar peças de construção, animais de plástico e bonecos sem roupa.
A mudança não aconteceu apenas porque as crianças passaram a ter mais brinquedos. Também mudou a forma como usamos a casa e como imaginamos a vida em família.
Muitos pais preferem que os filhos brinquem perto deles, sobretudo quando são pequenos. Enquanto um adulto cozinha, trabalha no computador ou vê televisão, a criança pode brincar no mesmo espaço sem ficar isolada no quarto. A sala passou a funcionar como o centro da vida familiar, onde todos fazem coisas diferentes, mas permanecem juntos.
Existe também uma questão prática: é mais fácil supervisionar uma criança quando ela está a dois metros do sofá do que fechada noutra divisão. A cozinha de brincar na sala permite preparar o jantar enquanto a criança “prepara” o seu próprio menu. A mesa pequena dá-lhe um lugar para desenhar enquanto os adultos conversam.
A presença dos brinquedos pode, por isso, representar uma infância mais integrada no quotidiano da família. A criança já não precisa de desaparecer para brincar.
Também mudámos enquanto pais
As gerações anteriores tendiam a separar mais claramente o mundo infantil do mundo adulto. Hoje, muitos pais procuram participar nas brincadeiras, sentar-se no chão, construir legos e criar cantos da casa pensados à altura dos filhos.
A decoração infantil também deixou de ser obrigatoriamente feita de plástico colorido. Cozinhas de madeira, pequenas estantes, mesas em tons neutros e cestos de fibras naturais são vendidos como peças capazes de coexistir com a decoração da sala. O brinquedo passou a ser apresentado quase como mobiliário.
As casas também são diferentes
Nem todas as famílias têm espaço para dedicar uma divisão inteira aos brinquedos. Muitos quartos infantis são pequenos, sobretudo em apartamentos urbanos, e precisam de acomodar cama, roupa, livros e material escolar.
A sala torna-se a solução disponível. É maior, tem mais luz e permite criar uma zona onde a criança pode brincar sem ocupar completamente o quarto. Os espaços abertos entre cozinha e sala reforçam essa tendência: em vez de divisões separadas, a vida acontece numa área comum.
O problema surge quando esse canto infantil começa a alastrar. Primeiro chega a cozinha. Depois, a mesa. A seguir, uma estante, uma tenda, uma garagem de carros e uma caixa tão grande que já ninguém sabe exatamente o que contém.
A sala não tem de se transformar numa creche
Integrar os brinquedos nas áreas comuns não significa aceitar que toda a casa fique permanentemente ocupada por eles. As crianças também podem aprender que os espaços são partilhados e que brincar inclui arrumar.
Cestos fechados, móveis baixos e uma quantidade limitada de brinquedos na sala ajudam a manter algum equilíbrio. Os restantes podem ficar no quarto e ser trocados regularmente. Assim, a criança encontra variedade sem que todos os objetos que recebeu desde o nascimento estejam visíveis ao mesmo tempo.
Também faz sentido definir um momento para devolver a sala ao seu estado habitual. Não precisa de parecer um catálogo de decoração, mas é legítimo que os adultos queiram sentar-se à noite sem pisar um dinossauro ou retirar uma boneca da almofada.
Os brinquedos na sala dizem muito sobre a parentalidade atual. Queremos que as crianças tenham espaço, que se sintam incluídas e que possam brincar perto de nós. Ao mesmo tempo, sentimos falta da casa arrumada em que crescemos, provavelmente porque não éramos nós que a arrumávamos.
Entre a cozinha de madeira e o sofá, tenta-se encontrar um compromisso: uma casa onde as crianças possam realmente viver, mas onde os adultos também consigam respirar.
Um dia, sem aviso, a pequena mesa desaparecerá. Os cestos deixarão de ter legos e a cozinha de brincar será vendida ou oferecida. A sala voltará a parecer exclusivamente adulta e é possível que, nessa altura, sintamos falta do caos que agora tanto tentamos esconder.
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