Cérebro, para que te quero? 8 hábitos para proteger o órgão mais extraordinário do corpo humano

Todos os dias o utilizamos sem sequer pensar nele. É graças ao cérebro que respiramos, amamos, corremos, saltamos, aprendemos, sonhamos, criamos memórias e tomamos milhares de decisões. No entanto, apesar de ser o órgão mais complexo do corpo humano, continua a ser um dos menos compreendidos.

No Dia Mundial do Cérebro, celebrado a 22 de julho, vale a pena parar por alguns minutos para refletir sobre a importância deste órgão extraordinário e perceber como podemos cuidar melhor dele.

O cérebro não se mede aos palmos
Com cerca de 1,4 kg, o cérebro representa cerca de 2% do peso corporal, mas consome aproximadamente 20% da energia utilizada pelo organismo. É constituído por cerca de 86 mil milhões de neurónios, ligados entre si por biliões de conexões, chamadas sinapses, formando uma rede de comunicação extraordinariamente complexa.

O mais fascinante é que o cérebro está em constante transformação. Graças à neuroplasticidade, consegue reorganizar-se ao longo de toda a vida, criando novas ligações sempre que aprendemos algo novo, adquirimos uma nova competência ou recuperamos de determinadas lesões. É esta capacidade de adaptação que nos permite continuar a aprender e mudar traços da nossa personalidade.

O que os olhos não veem… o cérebro sente.
Apesar da sua extraordinária complexidade e da importância que tem em praticamente todas as funções do organismo, o cérebro permanece escondido e protegido pela caixa craniana. Ao contrário do coração, da pele ou dos músculos, não o conseguimos ver nem sentir diretamente. Talvez por isso seja fácil esquecermo-nos de que também ele precisa de cuidados e que, como qualquer outro órgão, também pode adoecer.

As doenças do cérebro incluem não só patologias neurológicas, como o acidente vascular cerebral (AVC), a doença de Alzheimer ou a doença de Parkinson, mas também perturbações mentais, como a depressão, as perturbações de ansiedade ou a esquizofrenia. Hoje sabemos que a saúde cerebral e a saúde mental estão profundamente interligadas, sendo impossível falar de uma sem considerar a outra.

Mais vale prevenir do que remediar

Cuidar do cérebro começa nas pequenas escolhas do dia a dia. Descobre oito hábitos que podem ajudar a protegê-lo e a mantê-lo saudável ao longo da vida.

1 – És o que comes.
Aquilo que colocas no prato também alimenta o teu cérebro. Uma dieta equilibrada, rica em frutas, vegetais, peixe e gorduras saudáveis — como a dieta mediterrânica — está associada a menor risco de depressão e de declínio cognitivo ao longo da vida. Nutrientes como os ácidos gordos ómega-3, os antioxidantes e as vitaminas do complexo B são essenciais. Além disso, a saúde do microbioma intestinal, fortemente influenciada pela alimentação, desempenha um papel cada vez mais reconhecido na regulação do humor e da função cerebral através do eixo intestino-cérebro.

2 – O sono comanda a vida.
O sono é o principal período de “manutenção” do cérebro, é neste período que são eliminados resíduos metabólicos tóxicos. A privação crónica de sono prejudica a concentração, a memória de trabalho e a regulação emocional, aumentando o risco de perturbações de ansiedade e depressão. Estabelecer horários regulares, evitar cafeína e ecrãs antes de dormir são medidas fundamentais para a saúde cerebral.

3 – Corpo são, cérebro são.
O exercício físico faz muito mais do que fortalecer músculos. Também melhora a memória, a concentração e o humor, estimula a criação de novas ligações entre neurónios e reduz o risco de doenças como a depressão, o AVC e a demência. Não precisas de correr uma maratona: uma caminhada diária já faz a diferença.

4 – Menos (álcool e drogas) é mais (saúde).
Um copo de vinho à refeição faz bem – isto é um dos maiores mitos da medicina jurássica. O álcool é tóxico para o cérebro a partir da primeira gota. O álcool e as drogas (mesmo aquelas que o leitor considera “naturais”, como os canabinoides) podem desencadear ou agravar perturbações de ansiedade, depressão e psicose, e aumentam o risco de desenvolver demência. Evitar estas substâncias é uma das formas mais diretas de proteger a integridade estrutural e funcional do cérebro a longo prazo.

5 – O saber não ocupa lugar
A estimulação cognitiva regular — como ler, resolver puzzles, aprender um instrumento musical ou estudar um novo idioma — fortalece as redes neuronais e constrói a chamada reserva cognitiva, que funciona como uma “almofada” contra o declínio cognitivo. Quanto maior a reserva cognitiva, maior a capacidade do cérebro de compensar danos causados pelo envelhecimento ou por doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. O mais importante é variar as atividades e aumentar progressivamente o nível de desafio, pois é a novidade e a complexidade que mais estimulam a formação de novas conexões sinápticas.

6 – Diz-me com quem andas…
A interação social ativa múltiplas áreas cerebrais em simultâneo — linguagem, empatia e memória — funcionando como um dos exercícios cognitivos mais completos que existem. O isolamento social é reconhecido como um fator de risco independente para demência, com um impacto comparável ao da hipertensão ou da inatividade física, para perturbações de ansiedade e depressão. Manter relações significativas, participar em atividades de grupo e cultivar laços afetivos fortes protege não só a saúde cognitiva, mas também a resiliência emocional perante adversidades.

7 – Não deixes para amanhã o que podes descansar hoje.
Um pouco de stress faz parte da vida, mas quando é intenso ou prolongado pode adoecer-nos. Encontrar estratégias para relaxar — como praticar exercício, meditar, respirar profundamente ou dedicar tempo aos hobbies — ajuda a proteger o cérebro.

8 – Temos de falar…
Falar sobre o cérebro e a saúde mental continua a ser um tabu para muitas pessoas. No entanto, quanto mais conhecermos estes temas, mais facilmente conseguimos reconhecer quando algo não está bem, procurar ajuda sem receios e adotar hábitos que protegem o cérebro ao longo da vida.

Porque todas as memórias que vais criar, todas as pessoas que vais amar e todos os sonhos que ainda vais realizar começam no mesmo lugar: o teu cérebro. Cuida dele.

Artigo Por Ricardo Soares Nogueira, médico interno de psiquiatria (@projetoSMS)

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