Será?
Já estamos todas fartas de saber que saudade não tem tradução para outras línguas, certo? Não é que não possamos arranjar palavras noutros idiomas, mas, quando o fazemos, ou são demasiadas e fica confuso, ou são de menos e não fica específico que chegue. E sobretudo: passam a ideia principal, mas não a emoção que a sustenta.
Bem, o mundo está cheio de palavra assim! Consoante as culturas, tradições e hábitos de cada cantinho, saltaram aos olhos dos seus nativos diversos detalhes e sentimentos que era forçoso nomear. E é curioso constatar que muitos desses são relativamente transversais à experiência humana (por todo o globo, não só naquele território), mas que só em algumas línguas decidiram dar-lhes espaço para existir no dicionário. E, por norma, é precisamente porque a filosofia de vida e os valores dessa nação tornam o seu povo mais permeável a prestar atenção a certos fenómenos. Ora, vejamos algumas palavras únicas…
Komorebi – 木漏れ日, japonês
木 (árvore) + 漏れ (algo que escapa/filtra) + 日 (sol/luz)
Esta palavra japonesa refere-se à luz do sol que atravessa as árvores, criando aqueles padrões oscilantes de luz e sombra. A palavra em si é quase uma pequena descrição: “luz do sol que se infiltra pelas árvores”.
O mais interessante é que ela tenha surgido numa cultura que prima pela atenção a fenómenos naturais pequenos, passageiros e sazonais. Afinal, as cerejeiras em flor – um espetáculo cor-de-rosa sem igual – duram apenas 2 semanas. Há uma longa tradição japonesa de observar e nomear precisamente essas manifestações fugazes da natureza.
Tarab, árabe
طرب (estado de comoção, prazer, encantamento)
Esta é uma emoção que uma bela poesia, música ou canto podem despertar em nós. Descreve um estado de absoluto êxtase e encantamento provocado por esse tipo de arte, sobretudo se for de origem árabe. O que ouvimos deixa de ser um mero objeto, mas também um sujeito capaz de suscitar em nós uma sensação profundamente arrebatadora; é uma experiência emocional que nos envolve. Pode surgir prazer, emoção, nostalgia, desejo, uma espécie de transe e até, na origem da palavra, tristeza ou aflição. E, talvez o mais bonito – é uma experiência que envolve intérprete, ouvinte e público; é partilhada.
Fernweh, alemão
Fern (longe) + Weh (dor/anseio)
Não é só querer ir dar uma volta para espairecer. É mais forte que isso. Carrega uma nostalgia, uma melancolia por um sítio onde talvez nem nunca tenhamos estado. Enquanto Heimweh é ter saudades de casa, Fernweh é o contrário: é ter saudades do longínquo. Ansiar por ter alguma distância entre nós e a nossa zona de conforto, com as suas previsibilidades e rotinas já conhecidas. Uma espécie de preciso de ir para outro sítio, agonia-me continuar aqui.
Yūgen – 幽玄, japonês
幽 (oculto) + 玄 (profundo)
Este termo começou por aparecer em textos filosóficos e literários, mas tornou-se depois um aspeto importante da estética japonesa. Nesse sentido, Yūgen surge aqui como uma beleza misteriosa e profunda. Não, Carrie; não é estilo Mr. Big que não te responde há 2 semanas e te prende na sua espiral de autocomiseração e ghosting. Definitivamente não é esse tipo de mistério. É ver um pedacinho de uma montanha surreal, que está coberta pela neblina, e poder apenas imaginar o resto; é ver uma pintura magnífica e ler nas entrelinhas o que não está explícito. Sabes? É a beleza no que não sabemos ou não mostramos completamente. É constatar que há algo maior, mais denso e inexplicável.
Gezelligheid, holandês
Gezel (companheira/pessoa com quem se partilha algo) + lig (que tem qualidade de)
Com o tempo, a palavra ganhou um sentido mais amplo e deixou de ter apenas este sentido de “fazer companhia”. Imagina isto: chuva lá fora, uma pizza partilhada entre 4 amigos, luzes quentes, muita risada, histórias partilhadas… há aqui uma mistura de intimidade que aconchega, conforto no convívio, calor humano e sensação de pertença. Aquela paz de saber que estamos exatamente onde queremos estar com quem queremos estar? Isso é gezeligheid.
Jayus, indonésio
Tens algum amigo que conta piadas tão más, tão más… que têm piada?! Isso é uma jayus. Quando uma anedota ou brincadeira cria aquela vergonha alheia que nos deixa meio embaraçadas e desconfortáveis, e por isso, sentimos uma enorme vontade de rir.
Nunchi – 눈치, coreano
눈 (olho) + 치 (medida, força, poder)
Sabes aquela pessoa inconveniente que não sabe avaliar o contexto e evitar determinados comentários, quando alguém está chateado ou triste? Essa pessoa não tem Nunchi. Esta é a capacidade observar uma dinâmica, perceber humores alheios, intenções e relações e adaptar rapidamente em conformidade. Escusado será dizer que é, por isso, uma gigante competência social, muito valorizada pelos coreanos, uma vez que evita situações constrangedoras. Além do mais, é um grande indicador de inteligência emocional. É muito interessante que isto seja uma qualidade valorizada – o suficiente para criar uma palavra – mas que, noutras culturas, não exista tanto isto de tabus ou evitar o elefante na sala, por serem países que primam mais pela assertividade e frontalidade.
Sobremesa, espanhol
Não estás a ler mal, não. Esta palavra é mesmo espanhola e… tem um significado diferente daquele a que estamos habituadas deste lado da Península. Neste caso, refere-se ao tempo de conversa e convívio que se segue a uma refeição, em que bebemos café, contamos histórias, discutimos ideias e falamos da vida. Claro que esta palavra pode traduzir-se de forma mais simples que as outras que já vimos, mas não é curioso que uma cultura veja nas refeições uma oportunidade tão perfeita para conviver e estar presente, que tenha querido criar uma palavra para ela? Torna o momento muito mais consciente e intencional.
Abbiocco, italiano
Aquela moleza irresistível e inexplicável depois de comer. Não, não é sono; e também não é cansaço; nem sonolência! É especificamente sentir as pálpebras a fechar, a cabeça a pender para o lado e soltar um “estou cheia e cheia de sono!” Há duas possíveis origens aqui. Segundo uma delas, abbiocco deriva de biocca (galinha) e a ideia seria “estar como uma galinha que se recolhe para dormir”. De acordo com outra teoria, a palavra original era “biocco”, uma espécie de torpor cansado. Zero surpreendente que tenham sido os italianos, os apologistas do dolce far niente e da comida deliciosa, a arranjar uma palavra para querer fechar os olhos depois do almoço.
Mamihlapinatapai, Tierra del Fuego (a parte ocidental pertence ao Chile, a parte oriental à Argentina)
Sabes aquele episódio de How I Met your Mother em que a Victoria explica ao Ted que o momento antes do beijo é melhor que o beijo em si (o “drum roll”, como ela lhe chama)? Não? Então, se calhar, devias ir ver a série, vai por mim. Mas, antes de ires, já te explico qual a relação entre esse momento e esta palavra. Mamihlapinatapai refere-se àquela troca de olhares carregada de emoção e sentimento em que nenhum dos dois envolvidos toma uma ação, mas deseja profundamente que o outro o faça. O momento antes de uma confissão, a hesitação que antecede um movimento… Teve origem entre uma tribo na Tierra del Fuego, numa língua (yagan) que foi já declarada extinta. A palavra foi reconhecida pelos recordes do Guinness como uma das mais sucintas e difíceis de traduzir do mundo! Ela junta vários elementos de 5 palavras distintas (em vez de aglutinar palavras completas) e traduz este momento pleno de nervos e de possibilidades.
Não é delicioso que todos vivamos no mesmo planeta, mas vejamos as coisas de forma tão diferente, consoante as palavras que conhecemos e utilizamos? Há momentos que passam despercebidos, às tantas, apenas porque não temos um nome para eles. Não conhecemos o que não identificamos, certo? Ter palavras torna-nos mais intencionais: no tempo que despendemos depois do almoço, nos olhares que trocamos, na saudade que carregamos, nos fenómenos que observamos… Precisamente por isso, John Koenig deu início a um projeto que não deve ter sido pera doce: cunhar novos termos para emoções complexas que todos sentimos.
Se ficaste curiosa, experimenta pesquisar “The Dictionary of Obscure Sorrows”!
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