Porque é que tantos casais se separam depois das férias? O psicólogo Fernando Mesquita responde.

Quando setembro chega, muitos psicólogos e terapeutas de casal assistem a um aumento significativo dos pedidos de ajuda e, infelizmente, também das separações.

Mas porque acontece isto?

A resposta não está nas férias. Está naquilo que as férias deixam de conseguir esconder.

Durante grande parte do ano muitos casais vivem num ritmo acelerado. Trabalho, filhos, contas para pagar, tarefas domésticas, compromissos familiares… e, no meio disto tudo, há sempre alguma urgência que acaba por ocupar o espaço da relação. E, sem darem por isso, deixam de falar sobre aquilo que realmente importa. O que sentem. O que precisam. O que os preocupa.
Os conflitos ficam por resolver. As demonstrações de carinho tornam-se menos frequentes. A intimidade emocional e sexual começa lentamente a perder espaço. Ao mesmo tempo que se instala um pensamento muito comum: “Nas férias vamos ter tempo para nós.”

O problema é este tipo de pensamentos transfere para as férias uma responsabilidade impossível: salvar uma relação que esteve meses, ou até anos, a ser colocada em segundo plano.

Por isso, gosto de fazer a seguinte pergunta aos casais: “Se pudessem escolher entre receber uma flor todos os dias ou um enorme ramo apenas uma vez por ano, o que escolheriam?”

A maioria responde que prefere a primeira opção. Mas, curiosamente, na relação funcionam exatamente ao contrário. Esperam que quinze dias intensos consigam compensar centenas de dias de distância emocional. E é precisamente aqui que muitos casais percebem que a conversa já não flui. Que a cumplicidade desapareceu. Que existe mais silêncio do que proximidade. Ou que a presença do outro, em vez de transmitir tranquilidade, desperta irritação.

Mas, a verdade é que as férias não criam necessariamente os problemas. Apenas lhes dão visibilidade. Uma relação não muda porque mudou o cenário. Não basta trocar o escritório pela praia ou a cidade pelo campo.

Então, o que pode fazer um casal para evitar chegar a este ponto?

Antes de mais, deixar de tratar a relação como algo que pode esperar. Tal como fazemos revisões periódicas ao carro ou consultas de rotina para cuidar da saúde, também as relações precisam de manutenção. Vale a pena reservar momentos para conversar sem distrações. Perguntar ao outro como se sente. O que está a correr bem. O que poderia ser diferente. Pode parecer um gesto simples, mas evita que pequenos incómodos cresçam até se transformarem em enormes ressentimentos.

Outra estratégia importante passa por interromper a rotina antes que ela se instale de forma definitiva. Não é necessário esperar pelas férias de verão para criar momentos especiais. Um jantar diferente, uma caminhada ao fim da tarde, um fim de semana fora ou até uma tarde sem telemóveis podem ter muito mais impacto do que imaginamos.

Também é importante aprender a substituir a crítica pelo reconhecimento. Quando uma relação atravessa uma fase difícil, o cérebro tende a reparar apenas naquilo que falta. Nos erros. Nas falhas. No que incomoda. Fazer um esforço consciente para reconhecer aquilo que o outro faz bem ajuda a quebrar este ciclo e melhora significativamente a qualidade da comunicação.

Finalmente, quando estas estratégias já não chegam e o sofrimento se prolonga, procurar ajuda especializada pode ser a melhor opção. Não porque a relação falhou, mas porque ambos decidiram deixar de lutar sozinhos.

Artigo por Fernando Mesquita
Psicólogo Clínico / Sexólogo
@dr.fernandomesquita

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