Hoje é dia do filho do meio

Não é a ordem de nascimento que define o nosso valor, mas sim o espaço que nos deixam para sermos vistos.

Nem sempre é fácil ser o filho do meio. Não se é o pioneiro, nem o bebé protegido – está-se no meio, onde se ouve menos o barulho dos holofotes, mas se aprende a escutar com atenção.

Na psicologia familiar, chamam a esta posição o “efeito sanduíche”: o filho do meio fica entre duas fatias de pão – o mais velho carrega as primeiras expectativas, o mais novo recebe a atenção do bebé. No meio, pode sentir-se apertado, quase invisível.

É um lugar de silêncio, mas também de resiliência. Onde se aprende a ser visto sem fazer demasiado ruído, a adaptar-se, a criar para existir.

Ser filho do meio é crescer com um pé em cada lado, a negociar afetos, a mediar conflitos, a construir pontes invisíveis dentro da família.

Posso ser o melhor aluno… Ou aquele que se porta pior só para ser visto.

No carro, o meu lugar nunca é o do meio. O mais velho vai à frente, o mais novo na janela- “e se vamos os três atrás, eles conversam, e eu fico a olhar para a paisagem das conversas invisíveis”.

Às vezes, em casa sou uma pessoa, fora dela sou outra – como se precisasse de crescer para agradar ou chocar, para ser notado.

É um lugar que pesa a sensação de invisibilidade, a luta por um espaço que às vezes parece não existir. Mas também é onde a alma se molda com flexibilidade, empatia e coragem.

Falar de ser filho do meio é falar da procura constante por equilíbrio, reconhecimento e um espaço só nosso.

E se olharmos bem, talvez seja no meio que reside a maior virtude: ser o elo que une, o coração que entende todos os lados, a voz que ouve mesmo quando parece que ninguém escuta.

No meio… pode estar a virtude.

Ser filho do meio é, acima de tudo, aprender a ser único num lugar onde muitos pensam que passamos despercebidos.

Que esta seja uma celebração de todos os que encontram no meio o seu verdadeiro lugar no mundo.

Artigo por Francisca Silva Ferreira, Psicóloga e Diretora do Núcleo CASA no Porto
@franciscacayres