Todos os anos, entre 1 e 7 de agosto, a Semana Mundial do Aleitamento Materno convida-nos a refletir sobre a forma como protegemos, promovemos e apoiamos a amamentação. Em 2026, a campanha centra-se no aleitamento materno como base para um início de vida sustentável e na importância de fortalecer aquilo que já sabemos que funciona. Para mim, a mensagem é simples: não basta dizer a uma mulher que amamentar é importante. É preciso criar condições para que o consiga fazer.
Uma mãe não amamenta apenas com leite. Amamenta com descanso, confiança, informação e apoio. Amamenta melhor quando alguém a escuta, observa uma mamada com atenção e não desvaloriza a dor com um “isso é normal”. O aleitamento materno é natural, mas nem sempre é fácil ou intuitivo. Nos primeiros dias podem surgir dificuldades na pega, fissuras, ingurgitamento, dúvidas sobre a produção de leite ou a sensação de que o bebé quer mamar a toda a hora. E, muitas vezes, quer mesmo: os recém-nascidos não usam relógio nem conhecem intervalos perfeitos de três em três horas.
O leite materno adapta-se às necessidades do bebé e constitui uma importante fonte de nutrição e proteção. A Organização Mundial da Saúde recomenda o aleitamento materno exclusivo durante os primeiros seis meses e a sua continuação, com alimentação complementar adequada, até aos dois anos ou mais, enquanto fizer sentido para a mãe e para a criança. Mas apresentar recomendações é a parte fácil. O verdadeiro desafio começa quando uma mulher chega a casa cansada, ainda a recuperar do parto, com poucas horas de sono e rodeada de opiniões. Frases como “o teu leite pode não ser suficiente” ou “dá-lhe um biberão para dormir melhor” são muitas vezes bem-intencionadas, mas podem aumentar a insegurança de quem já está a tentar perceber se está a fazer tudo bem.
Fortalecer o que funciona começa antes do nascimento, com informação realista durante a gravidez, sem romantizar a amamentação nem assustar. Continua, sempre que possível, com contacto pele com pele, apoio nas primeiras mamadas, observação da pega e acompanhamento nos dias seguintes. Funciona quando a dor é valorizada, quando as orientações são claras e coerentes e quando a ajuda chega no momento em que surge a dificuldade.
Funciona também quando o pai ou outro cuidador percebe que apoiar não é ficar apenas a assistir. Pode proteger o descanso da mãe, assegurar refeições, tratar das tarefas da casa, limitar visitas, pegar no bebé depois da mamada ou simplesmente perguntar: “De que precisas?”. Muitas vezes, cuidar da amamentação passa por gestos pequenos, mas muito concretos.
Promover a amamentação também não pode significar julgar quem não amamenta. Há mulheres que desejam muito fazê-lo e encontram dificuldades que não conseguem ultrapassar. Há situações clínicas em que é necessário complementar e há mães física ou emocionalmente exaustas que decidem não continuar. Nenhuma destas situações faz de alguém uma mãe pior. O nosso papel, enquanto profissionais de saúde, é informar com honestidade, apoiar com competência e respeitar as decisões de cada família. A culpa pesa muito, mas nunca alimentou nenhum bebé.
Nesta Semana Mundial do Aleitamento Materno, talvez devamos falar menos sobre aquilo que as mães devem fazer e mais sobre o que todos podemos fazer para as apoiar: menos pressão e mais ajuda concreta, menos opiniões e mais escuta, menos idealização e mais respeito pela realidade de cada mulher, de cada bebé e de cada família. Porque cuidar de quem amamenta é cuidar do bebé.
Artigo por Sandra Silva
Pediatra do Grupo Trofa Saúde
@pediatracombomsenso