À semelhança da universidade mais antiga do país, que se moveu de Lisboa para Coimbra em 1537, também o tribunal do The Verdict deixa a beira Tejo e ruma à cidade dos estudantes.
O caso número 5 está aberto. Sejam bem-vindos ao Noster ou, como já muitos lhe chamam, “à Maria”.
Não há caso sem interrogatório e a primeira pergunta parece quase óbvia: Porquê Noster? A escolha do nome já daria um ótimo início de conversa, não fosse pela sua proximidade à Igreja do Mosteiro de Santa Cruz e pela associação ao lado religioso (Pater Noster – Pai nosso). Mas a escolha vai mais além e toma um significado muito pessoal à proprietária, Maria Rebelo. Antes de existir porta aberta ao público, já havia mesa posta. Maria, formada em hotelaria em Coimbra e com percurso na restauração, recebia amigos em casa, servia vinhos, preparava petiscos. O gesto repetiu-se vezes suficientes até deixar de ser acaso e passar a ser conceito. Assim nasceu o Noster, do latim “nosso”, uma extensão natural daquilo que já existia: o prazer de receber.A junção de uma vontade pessoal de ter algo seu e de dar algo a Coimbra. E ainda que tenha ótimos petiscos, não se deixem enganar… não é um restaurante, “é um bar de vinhos”, como defende Maria.
Apresentado o arguido, está na altura de inspecionar o local do crime. Acusação: o de transformar estranhos em convidados e clientes em cúmplices de uma experiência de troca mútua. Não afirmasse Maria, que “de forma um pouco egoísta”, esta acaba por ser a sua maneira de dar a volta ao mundo. “Entra um australiano, trocamos conversa e no final já conheci um pouco da Austrália”. À porta, a hospitalidade é imediata e chega-nos um convite quase sussurrado que dita “entrem, este espaço também é vosso”.
Entremos… logo no início, uma exposição enorme de vinhos, quase como quem deixa o aviso do que se avizinha: um espaço onde se descomplica o vinho. Não é preciso ser-se enólogo ou um expert, basta partilhar a paixão por aquilo que o vinho pode proporcionar e o resto fica com a Maria (não existissem alguns clientes que já confiam a sua refeição na totalidade).
Avancemos para as provas.Chamaram a depor não apenas pratos, mas experiências. No Noster, o vinho não é apenas servido — é vivido. Num workshop quinzenal a mensal, há convites a produtores, provas descontraídas ao final da tarde, onde por um valor bastante acessível (à data 10€) se entra num jogo de descoberta que depois se prolonga na garrafeira. A degustação de vinhos ocorre, por norma, à sexta ou ao sábado. Existe, ainda a enigmática “Mesa sem rótulos”: um jantar de mesa única, sem revelações prévias, onde desconhecidos partilham comida, vinho e histórias, guiados por um tema que tanto pode tocar na gastronomia como fugir dela. Uma experiência ao desconhecido, pensada para quebrar rotinas. Um “crime” que acontece à segunda-feira. Porque, como se alega aqui, “um jantar fora pode ser a qualquer dia da semana, não temos de esperar pela sexta ou pelo sábado”.
E depois, claro, os pratos. A obra da sua cúmplice, Priscila Fernades, que apesar de ficar atrás do balcão, espalha a sua essência, através da comida, espaço fora. Começamos pela tosta com caponata e burrata. Densa, mas equilibrada por uma frescura subtil (raspas de limão? Corrija-me, se estiver errada Maria). Os croquetes de alheira, irrepreensíveis, encontraram no contraste da maçã e da salada um argumento sólido. O tártaro de cavala braseada, com tomatada e maionese da casa, trouxe frescura e leveza, numa explosão de sabores inesperada. Já o cachorro de polvo revelou-se uma surpresa bem conseguida, com o polvo tenro a sustentar a ousadia. Pelo meio, ovos rotos, clássicos, reconfortantes, sem necessidade de reinvenção. E, para fechar o caso, bolo de bolacha, não apenas uma sobremesa, quase um ritual. Não fosse Maria já conhecer bem o pedido habitual. Mas atenção, o desafio fica na reinvenção e experiência. O poder, a cada vez, experimentar algo novo. A passos largos no interrogatório, Maria confessou: o culminar de viagens, trabalho e vivências traduzem-se numa carta que nasce sempre do vinho, nunca o contrário. Esse é o foco principal. Falemos agora dele.
No que toca a esta iguaria, a estratégia do arguido é peculiar. Em vez de perguntar o que se gosta, Maria prefere saber o que não se gosta. A partir daí, constrói. Escolhe. Arrisca. E, por norma, acerta. Porque, como a própria diz, “é mais fácil definir o que rejeitamos do que aquilo que procuramos”.
O Noster não se limita às quatro paredes. Marca presença em eventos culturais da cidade, estendendo-se a jantares privados. Sim, é verdade. Podem levar um pouco desta experiência da “casa da Maria” até à vossa casa.
No Noster, não há espaço para nos distrairmos do essencial: as pessoas, o vinho, a partilha. “Um espaço onde nos podemos perder e esquecer um pouco o mundo lá fora”. E quem entra, vai com curiosidade e fica com vontade de pertencer.
Este tribunal não tem dúvidas.
O veredicto: o arguido é culpado de redefinir o conceito de bar de vinhos em Coimbra, roubando-lhe formalidade e substituindo-a por proximidade.
A sentença: portas abertas, copos cheios e uma casa que passa a ser também de quem entra, sem direito a recurso.
Vemo-nos no próximo caso.
Artigo por Catarina Ogando
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