Entrevista a Júlia Palha: “A liberdade nunca deve ser encarada como uma garantia absoluta”

Em O Lavagante, Júlia Palha veste a pele de Cecília, uma mulher envolta em sedução, mistério e ambiguidade, num Portugal marcado pela censura, pela PIDE e pela falta de liberdade. À conversa com o Glitter Dream, a atriz fala sobre um dos papéis mais exigentes da sua carreira no cinema, a química com Francisco Froes e a importância de continuarmos a contar histórias que nos recordam que os direitos que hoje parecem naturais foram conquistados.

Há personagens que se explicam rapidamente. Cecília não é uma delas. Em O Lavagante (2025), Júlia Palha entra num universo a preto e branco, passado no início dos anos 60, onde aquilo que não é dito pode ser tão importante como aquilo que acontece diante da câmara. Entre amor, desejo, medo, política e suspeita, a personagem vive num permanente jogo de dúvida.

Falámos com a atriz sobre a criação de Cecília, o trabalho com Francisco Froes, a representação das mulheres naquela época e aquilo que O Lavagante, apesar de se passar em 1962, ainda pode dizer a quem o vê em 2026.

A tua personagem, Cecília, é complexa: há nela sedução, mistério, contradição e até alguma ambiguidade. O que foi mais difícil para ti na criação desta personagem?

O mais desafiante foi precisamente construir essa ambiguidade. Acho que ela não estava tão evidente no guião e foi algo que surgiu muito das conversas com o Mário [Barroso, realizador] e com o Francisco [Froes], meu companheiro neste projeto. Percebemos que seria muito mais interessante para a história e, sobretudo, para o espectador, que nunca fosse totalmente claro se a Cecília estava ou não ligada à PIDE. Quisemos deixar essa dúvida no ar durante o máximo de tempo possível.

Depois, houve um grande trabalho de subtileza. Quando trabalhamos em televisão, acabamos por ter mais espaço para ser expansivos. No cinema, sobretudo neste filme, com muitos grandes planos e uma estética muito específica, a câmara está muito perto e capta tudo.

A Cecília tinha de transmitir imenso sem revelar demasiado, porque o mistério fazia parte dela. E, ao contrário do que possa parecer, expressar tristeza, medo, desejo ou inquietação quase sem alterar uma expressão pode ser muito mais difícil do que exteriorizar essas emoções.

Para mim, enquanto atriz, esse foi um dos maiores desafios e também uma das coisas que mais gostei de explorar.

A história de O Lavagante passa-se no início dos anos 60, num Portugal marcado pela censura, pelas perseguições e pela revolta estudantil. Para uma atriz da tua geração, interpretar uma jovem mulher naquele contexto fez-te olhar de maneira diferente para as liberdades que hoje damos por garantidas?

Sem dúvida. Acho que nunca são demais os filmes que nos obrigam a revisitar estes períodos da nossa História.

Eu cresci num país democrático e numa geração para quem muitas das liberdades que temos hoje são quase naturais. Mas elas não são naturais: foram conquistadas.

Interpretar uma jovem mulher naquele contexto torna muito evidente a distância entre aquilo que hoje podemos escolher, dizer, fazer ou até amar livremente e aquilo que era possível há pouco mais de 60 anos.

E acho particularmente importante contar estas histórias numa altura em que vivemos num mundo tão polarizado. Sobretudo para as gerações que não conheceram essa realidade, é importante lembrar que a liberdade nunca deve ser encarada como uma garantia absoluta.

Foi preciso lutar por ela e é preciso continuar a protegê-la através da memória, da informação e da participação.

Há uma componente muito forte de desejo e sedução em O Lavagante, mas tudo é muito menos explícito do que estamos habituados a ver hoje. Como se constrói essa tensão apenas através dos olhares, dos silêncios e do diálogo?

Voltamos um pouco a esse trabalho de subtileza. Quando as coisas não estão explícitas no texto, é preciso encontrar outras formas de as tornar absolutamente claras para quem está a ver, sem as sublinhar demasiado.

No caso da Cecília, muito desse trabalho estava no olhar. Costuma dizer-se que um olhar vale mais do que mil palavras e eu acredito mesmo nisso enquanto atriz. Há coisas que conseguimos dizer apenas com os olhos e que talvez perdessem força se fossem verbalizadas.

Também tive a sorte de construir uma química muito grande com o Francisco Froes, que, além de meu amigo, é um ator incrível e extremamente atento ao outro. Ele reage muito ao que recebe em cena e eu também gosto de trabalhar dessa forma, por isso havia uma verdadeira troca entre nós.

Acho que foi isso que nos permitiu criar essa tensão sem a forçar. No final, sobretudo quando estamos a contar uma história de amor ou de desejo, aquilo que o público procura é verdade. Podemos construir tecnicamente uma cena de muitas maneiras, mas, se não houver verdade entre aquelas duas pessoas, o espectador sente.

O filme é a preto e branco e tem uma estética muito próxima do film noir. Isso alterou a forma como pensaste o corpo, o olhar, a roupa ou até a maneira de te movimentares enquanto Cecília?

Sim, embora não apenas por ser a preto e branco. O facto de ser um filme de época teve uma influência enorme na construção física da Cecília.

Quando interpretamos alguém de outra época, há necessariamente uma atenção diferente à postura, à voz e à forma de ocupar o espaço. As pessoas movimentavam-se de outra maneira e, sobretudo, havia códigos muito diferentes associados às mulheres.

No caso da Cecília, havia ainda uma sensualidade muito particular que eu queria que estivesse presente sem nunca ser demasiado evidente. O próprio guarda-roupa ajudava muito nesse sentido: ela estava sempre elegante, mas havia sensualidade na silhueta, nas cinturas marcadas, na forma como as roupas acompanhavam o corpo.

Depois, o preto e branco, os grandes planos e toda a linguagem visual do filme pediam uma interpretação mais depurada, quase minimalista. Tudo tinha de ser muito preciso. Um movimento a mais, uma expressão demasiado evidente, podia quebrar aquela estética e até retirar mistério à personagem.

Este é também um projeto com um peso especial: nasce de José Cardoso Pires e do último argumento escrito por António-Pedro Vasconcelos. Sentiste essa responsabilidade durante as filmagens ou tentaste afastar-te desse peso para conseguires simplesmente encontrar a tua personagem?

Nunca o senti propriamente como um peso ou como uma responsabilidade intimidante, até porque o Mário nunca colocou esse tipo de pressão sobre nós. Senti, acima de tudo, um enorme orgulho.

Estamos a falar de um projeto que parte da obra de José Cardoso Pires, do último argumento de António-Pedro Vasconcelos e que chegou até nós através do Mário Barroso, que tem também um percurso extraordinário enquanto realizador e diretor de fotografia.

É impossível não perceber que estamos perante um projeto muito especial.

Claro que isso nos dá talvez um sentido acrescido de brio e de cuidado, mas tento ter esse compromisso em todos os trabalhos que faço. Neste caso, havia sobretudo uma vontade muito grande de estar à altura do material que tínhamos nas mãos e de contribuir para honrar todas essas pessoas através do nosso trabalho.

Algumas das críticas a O Lavagante destacaram precisamente este papel como uma oportunidade de vermos uma Júlia Palha num registo mais complexo, misterioso e dramático. O que crês que acrescenta à forma como o público te vê enquanto atriz?

Acho que já tive a oportunidade de interpretar personagens muito densas, dramáticas e com muitas camadas, nomeadamente em televisão.

Mas acredito que ainda existe algum preconceito relativamente à ficção televisiva e, em particular, à telenovela. É possível construir personagens extremamente complexas nesse formato, mas muitas vezes esse trabalho acaba por não chegar ao público mais ligado ao cinema ou por não ser olhado da mesma forma pela crítica.

Talvez O Lavagante tenha permitido mostrar uma nuance menos óbvia do meu trabalho a outro público. A Cecília exigia uma subtileza e uma ambiguidade muito próprias e, nesse sentido, acredito que seja uma das personagens mais completas que tive oportunidade de fazer em cinema.

Fiquei muito feliz com a forma como o filme e a personagem foram recebidos. Recebi mensagens muito bonitas, inclusivamente de pessoas que viveram aquela época e que reconheceram no filme histórias, ambientes e sentimentos que fizeram parte das suas próprias vidas.

Para mim, isso é talvez o mais importante. Enquanto artistas, queremos que aquilo que fazemos atravesse o ecrã e toque alguém do outro lado. Se a Cecília conseguiu fazer isso e, ao mesmo tempo, revelar uma faceta diferente de mim enquanto atriz, então não podia pedir muito mais.

Apesar de acontecer em 1962, O Lavagante fala de amor, poder, medo, liberdade, escolhas e da forma como o contexto político entra na vida privada das pessoas. O que achas que este filme diz a quem o vê em 2026?

Acho que, apesar de estar profundamente ligado a 1962, O Lavagante é muito intemporal porque, no fundo, fala de pessoas, de amor e daquilo que acontece quando circunstâncias exteriores começam a determinar as escolhas mais íntimas das nossas vidas.

Para nós, em 2026, parece quase impensável imaginar que duas pessoas possam não ter a liberdade de estar juntas por razões políticas. Mas essa era uma realidade há pouco mais de 50 anos, o que, historicamente, é muito pouco tempo.

Talvez seja essa uma das mensagens mais importantes do filme: não tomarmos a liberdade por garantida.

Temos o privilégio de viver num país onde podemos escolher quem amamos, aquilo em que acreditamos, o que dizemos e a forma como queremos viver. Mas essas liberdades existem porque houve quem lutasse por elas antes de nós.

Por isso, acho que o filme também é um convite a estarmos atentos. A informarmo-nos, a conhecermos a nossa História e a não nos desligarmos daquilo que acontece politicamente no nosso país e no mundo.

A liberdade pode parecer-nos absolutamente normal quando nascemos dentro dela. Talvez por isso seja tão importante continuar a contar histórias que nos recordem que nem sempre foi assim.

#GlitterUpYourLife