Nem todas as relações difíceis têm de terminar. Mas também não precisamos de normalizar uma relação que deixou, há muito, de nos fazer bem. A psicóloga Cátia Silva explica porque é tão difícil sair, o que acontece quando nos habituamos ao desconforto e quais as perguntas que podem ajudar a perceber se ainda existe espaço para reconstruir.
Terminar uma relação raramente acontece no momento exato em que deixamos de ser felizes. Antes disso podem existir meses ou anos de tentativas, esperança, memórias dos tempos em que tudo parecia funcionar e aquela sensação persistente de que talvez as coisas voltem a ser como eram.
Entretanto, os conflitos tornam-se mais frequentes, a comunicação diminui, instala-se o distanciamento emocional, desaparece a intimidade ou a confiança e começa a surgir a sensação de que já não existe espaço para crescer dentro daquela relação. E mesmo assim ficamos. Porquê?
Porque sair nem sempre é tão simples como “já não estou feliz”
Segundo Cátia Silva, psicóloga especializada em Autoestima, Depressão, Ansiedade, Luto, Burnout e PHDA, existem muitas razões que podem tornar uma separação difícil.
O medo da mudança, a dependência emocional ou financeira, os filhos, a pressão familiar, a baixa autoestima, o receio de ficar sozinho ou simplesmente a esperança de recuperar aquilo que existia no início podem pesar na decisão.
Também existe outra coisa muito humana: não queremos desistir da história que imaginámos.
Depois de vários anos, terminar uma relação pode significar também aceitar o fim de um projeto de vida onde investimos tempo, emoções, planos e expectativas. E isso ajuda a explicar porque saber que alguma coisa já não nos faz bem não significa automaticamente conseguirmos afastar-nos dela.
Podemos habituar-nos a não estar bem
Cátia Silva chama a atenção para um fenómeno especialmente importante: a adaptação ao desconforto.
Quando certos comportamentos se repetem durante muito tempo, podem começar a parecer normais. A insatisfação instala-se lentamente e deixamos de reconhecer com clareza o impacto que a relação está a ter no nosso bem-estar.
É aquele “as relações são mesmo assim”, “todos os casais discutem” ou “agora estamos numa fase pior” repetido durante tempo suficiente para começarmos a esquecer como nos sentíamos antes.
A psicóloga alerta que permanecer durante muito tempo numa relação marcada por insatisfação constante, conflito, falta de comunicação ou ausência de apoio emocional pode contribuir para ansiedade, tristeza, irritabilidade, dificuldades de sono, isolamento social e exaustão emocional.
Quando começamos a duvidar de nós
Uma das áreas que pode ficar particularmente fragilizada é a autoestima. Quando passamos muito tempo numa relação onde não nos sentimos valorizados, ouvidos ou respeitados, podemos começar a questionar as nossas próprias necessidades.
Será que estou a pedir demasiado?
Será que o problema sou eu?
Será que encontraria alguém diferente?
Com o tempo, a pessoa pode perder confiança nas próprias decisões, deixar de expressar aquilo de que precisa e colocar sistematicamente as necessidades do outro à frente das suas. Cria-se então um ciclo difícil: quanto mais fragilizada fica a autoestima, mais difícil pode tornar-se sair da relação, e permanecer pode fragilizá-la ainda mais.
Em vez de olhar para aquilo que já foi, olhar para aquilo que é
Talvez esta seja uma das ideias mais importantes: avaliar a relação como ela existe hoje, e não apenas pela história que teve ou pelo potencial que imaginamos que ainda possa ter.
Cátia Silva recomenda perceber quais são os problemas, há quanto tempo existem e, sobretudo, se as duas pessoas estão verdadeiramente disponíveis para mudar.
Conversar de forma clara sobre necessidades, limites e expectativas pode ajudar a perceber se ainda existe espaço para reconstruir a relação. E isso não implica perder a própria individualidade pelo caminho. Manter amizades, interesses pessoais, autonomia e uma vida para além do casal pode ajudar a recuperar espaço e a observar a relação com maior clareza.
Cinco perguntas que talvez valha a pena fazer
Às vezes, uma boa pergunta consegue organizar aquilo que estamos há meses a tentar perceber. A psicóloga sugere algumas:
- Tenho medo de ficar sozinho?
- Estou aqui porque quero ou porque tenho medo de sair?
- As minhas necessidades são respeitadas?
- Existe vontade de mudar de ambas as partes?
- Se esta relação continuasse exatamente assim, estaria bem com isso daqui a alguns anos?
A última talvez seja especialmente poderosa. Não imaginar o parceiro na sua melhor versão. Não pensar no início da relação. Não projetar aquilo que poderia acontecer. Apenas perguntar: se nada mudasse, eu escolheria continuar aqui?
Nem todas as crises são um fim
Olhar honestamente para uma relação não significa partir imediatamente.
Cátia Silva sublinha que nem todas as crises significam que uma relação deve terminar. Existem casais que atravessam períodos difíceis e conseguem recuperar quando há comunicação, compromisso e disponibilidade de ambas as partes para mudar.
O que não devemos, segundo a psicóloga, é normalizar uma relação que provoca sofrimento de forma continuada e compromete o bem-estar psicológico.
Quando existe dificuldade em perceber aquilo que queremos, medo intenso de terminar, dependência emocional ou repetição de relações pouco saudáveis, o acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o que nos mantém naquela relação, trabalhar a autoestima e tomar uma decisão de forma mais consciente.
O amor também é conseguir escolher
Ficar pode ser uma escolha. Tentar novamente pode ser uma escolha. Reconstruir pode ser uma escolha. E terminar também. O mais importante talvez seja conseguirmos distinguir uma escolha feita porque ainda existe amor, compromisso e espaço para crescer de uma permanência movida exclusivamente por medo, hábito ou pela esperança de recuperar uma relação que já só existe na memória. Porque cuidar de uma relação é importante. Mas continuar a cuidar de nós dentro dela também é.
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