Há uma certa crise silenciosa que acontece quando percebemos que talvez não queiramos trabalhar naquilo que estudámos.
E o mais estranho é que essa realização vem quase sempre acompanhada de culpa. Como se mudar de direção significasse desperdiçar anos da nossa vida. Como se o curso escolhido aos 17 ou 18 anos tivesse obrigatoriamente de definir quem somos para sempre.
Mas é quase absurdo esperar isso de alguém tão novo.
Aos 18 anos escolhemos cursos sem nunca termos trabalhado verdadeiramente, sem conhecermos o mercado, sem percebermos como realmente funcionamos enquanto adultos. Escolhemos muitas vezes com base em notas, pressão familiar, segurança financeira ou simplesmente porque “parecia fazer sentido”. E às vezes fazia. Naquele momento.
O problema é que nós mudamos. Mudam os interesses, prioridades, ambições e até aquilo que conseguimos tolerar emocionalmente todos os dias. Há pessoas que descobrem rapidamente que não gostam da profissão que idealizaram durante anos. Outras percebem lentamente, quase com vergonha, que aquilo que estudaram já não encaixa na vida que imaginam para si.
E custa admitir isso.Porque existe muito ego associado ao percurso académico. Muito investimento emocional, financeiro e identitário. Dizemos durante anos “eu sou isto”. Advogada. Arquiteta. Psicóloga. Jornalista. Médica. Como se a profissão fosse uma extensão fixa da personalidade.
Depois a vida acontece. Descobres que odeias ambientes corporativos. Que não suportas horários rígidos. Que gostas mais de criar do que executar. Ou simplesmente percebes que aquilo que te fascinava aos 20 já não te entusiasma aos 30.
E isso não devia ser encarado como fracasso. Na verdade, talvez seja maturidade.
Há qualquer coisa de muito corajoso em aceitar que uma escolha antiga já não representa quem és hoje. Mesmo quando toda a gente à tua volta parece continuar exatamente no caminho “certo”.
Porque existe também uma pressão enorme para manter coerência. Como se mudar de área, começar do zero ou reinventar-se fosse sinal de instabilidade. Quando muitas vezes é precisamente o contrário: é sinal de honestidade.
Claro que há medo. Medo financeiro, medo de julgamento, medo de “ter perdido tempo”. Mas raramente o tempo é realmente perdido. Tudo aquilo que estudaste, viveste e aprendeste continua contigo, mesmo que acabes noutro caminho completamente diferente.
E talvez a geração mais nova esteja finalmente a perceber uma coisa importante: a carreira deixou de ser linear. Já ninguém acredita verdadeiramente naquela ideia antiga de escolher uma profissão aos 20 e ficar nela até à reforma.
Hoje as pessoas mudam. Recomeçam. Experimentam. Misturam áreas. Criam profissões que nem existiam há dez anos. E talvez isso seja mais saudável.
Porque no fundo, aceitar que aquilo que estudaste pode não ser aquilo que vais fazer para sempre não significa que falhaste. Significa apenas que continuaste a crescer.
#GlitterUpYourLife