Metamorfose, Ep 7: Ansiedade – Arrumar gavetas não arruma a mente

Fala-se muito de ansiedade. Usa-se a palavra com leveza. Mas para quem vive com ela todos os dias, não é leve. Não é pontual. Não é “um nervosinho”. É um ruído constante de fundo. É o medo de não ter controlo. É o medo do desconhecido. É a insegurança de não saber se nos vamos adaptar a novos ambientes.

Para mim, a ansiedade não aparece só nos grandes momentos. Ela instala-se nas pequenas coisas do dia a dia, principalmente nas situações que não dependem de mim. O imprevisível é o meu maior inimigo.

Ser espontânea? Um grande não.

Planos de última hora deixam-me desconfortável. Alterações em algo que já estava decidido desorganiza-me por dentro. Preciso de saber com o que contar. Preciso de antecipar. Preciso de preparar mentalmente cada cenário.

Organizo os meus dias do início ao fim. E, muitas vezes, é difícil lidar com pessoas que vivem no “logo se vê”. Para elas, é leveza. Para mim, é inquietação.

Ao longo do tempo fui criando mecanismos para sobreviver melhor a isto. Escrever ajuda-me imenso. Ver tudo organizado numa folha de papel traz uma paz que a minha cabeça, sozinha, não consegue criar. Quando passo as ideias para o papel, é como se as tirasse do caos mental e as colocasse numa gaveta com etiqueta. E eu adoro etiquetas!

Mas o maior desafio chega à noite.

Quando deito a cabeça na almofada, não desligo. Nunca desligo. Passam-me mil pensamentos pela cabeça. Situações que ainda não planeei. Problemas que ainda nem existem, mas que já estou a tentar resolver. Dias que já estavam organizados no início da semana, mas que podem sempre ser melhorados. Tudo pode ser planeado melhor. Tudo pode ser otimizado. E enquanto devia estar a descansar, estou a arrumar as gavetas da minha mente.

O mesmo acontece no trabalho. Uma tarefa que pode perfeitamente ser feita ao longo de um dia de trabalho, na minha cabeça precisa de ser concluída o mais rápido possível. Enquanto não a termino, não consigo relaxar verdadeiramente. As pausas para café ficam em standby, o almoço passa para segundo plano, tudo fica em suspenso até a tarefa estar finalizada. Prefiro este pico intenso de stress para depois sentir, finalmente, que posso desligar. Sei perfeitamente que não é o método mais saudável, nem me considero exemplo para ninguém nesta matéria, mas é um padrão que tenho vindo a reconhecer… e, acima de tudo, a tentar melhorar.

Percebi, com o tempo, que a organização me acalma. A falta dela desestabiliza-me. A organização visual traz-me paz. Arrumar armários, separar por cores, por categorias, reorganizar o que já estava arrumado, porque pode sempre ficar melhor. E quando tudo volta ao sítio… eu volto ao meu.

Foi daí que nasceu também o meu gosto por planear viagens. Para mim, planear uma viagem é quase terapêutico. Semanas estruturadas. Dias pensados ao detalhe. Lugares definidos. Horários marcados. Bilhetes comprados. Restaurantes reservados. Tudo alinhado.

Porque a simples hipótese de chegar a um sítio sem plano, sem reservas, sem garantias e algo correr mal é suficiente para levar a minha ansiedade ao limite.

O meu maior desafio são as pessoas descontraídas. Aquelas que vivem sem uma única contratura. Que dizem “não sei, logo se vê” com uma naturalidade invejável. Às vezes torna-se difícil. Frustrante até. Porque quem não sente ansiedade raramente percebe o impacto de uma frase aparentemente simples.

Mas com a idade, tenho aprendido outra coisa: o meio-termo.

Nem tudo precisa de estar sob controlo. Nem tudo precisa de ser previsto. Nem tudo precisa de ser perfeito.

Tenho aprendido que confiar nos outros também é uma forma de crescer. Que permitir alguma desorganização não significa caos. Que se não for eu a fazer, não quer dizer que vá ficar mal feito. Significa apenas que será feito de forma diferente.

Todos temos imprevistos. Todos temos inseguranças. Todos temos situações desconfortáveis. E por mais que tentemos controlar tudo, o inesperado vai continuar a existir.

Talvez a verdadeira metamorfose não seja deixar de sentir ansiedade. Talvez seja aprender a geri-la.

Talvez não seja eliminar a necessidade de controlo, mas perceber quando a podemos largar.

Não acredito que esta ansiedade desapareça. Mas acredito que, com consciência, com prática e com aceitação, vou conseguir conviver com ela de forma cada vez mais leve.

E talvez isso já seja, por si só, uma forma de liberdade.

Artigo por Carolina Silva
#GlitterUpYourLife