Por Dra. Andreia Filipe Vieira, psicóloga especialista em psicoterapia psicodinâmica
Há dias em que sentimos que as redes sociais são uma janela aberta para o mundo: inspiram-nos, divertem-nos, aproximam-nos de pessoas e ideias que de outra forma não conheceríamos. Mas, noutros dias, parece que nos sugam a energia, como se cada scroll no feed fosse uma pequena gota a menos no nosso depósito de atenção e de calma. E, convenhamos, o scroll infinito é quase impossível de resistir. Nunca há um “fim”: é um convite constante a ver só mais um vídeo, só mais uma publicação, só mais um meme. O cérebro fica preso nessa promessa de novidade e, sem darmos conta, já passou quase uma hora.
O problema é que essa overdose de estímulos tem custos. A ansiedade é um dos primeiros sinais: o nosso corpo reage como se tivesse de acompanhar um fluxo sem pausa, cheio de informação, opiniões e comparações. Cada imagem perfeita, cada rotina de “sucesso”, cada viagem paradisíaca pode transformar-se num lembrete do que achamos que nos falta.
É inevitável que a nossa autoestima não fique afetada, porque medimos o nosso valor em likes ou em visualizações, esquecendo que aquilo que vemos é apenas a versão editada da vida dos outros.. Quantas vezes dizemos “só vou ver isto antes de dormir” e, quando olhamos para o relógio, já passaram duas horas? A luz do ecrã e a excitação mental que os vídeos rápidos provocam fazem com que o cérebro demore mais a desligar. Resultado: dormimos menos, pior e acordamos mais cansados. É um ciclo que se repete, e quanto mais cansados estamos, mais procuramos distrações fáceis, como… O scroll.
Mas não precisamos de entrar num regime radical e apagar todas as contas. As redes não são “más” em si mesmas. O que mexe connosco é a forma como as usamos. O segredo está em criar limites saudáveis, tal como fazemos em tantas outras áreas da vida. Comer um doce de vez em quando pode ser um prazer; comer um saco inteiro todos os dias tira-nos o equilíbrio. Com as redes, é parecido.
Alguns truques simples podem ajudar a recuperar esse equilíbrio. Por exemplo, estabelecer horários: decidir que depois de uma certa hora (digamos, meia-noite) o telemóvel já não entra na cama. Ou usar um temporizador: se sabe que costuma perder a noção do tempo, ponha um alarme discreto que o lembre quando já passou meia hora. Outra ideia é trocar o gesto automático de abrir o feed por um pequeno ritual alternativo: respirar fundo, alongar, beber água, escrever uma frase num caderno. Parece pouco, mas faz diferença.
E, de vez em quando, vale a pena experimentar um mini-detox digital: algumas horas ou um dia sem redes, só para recordar como é ocupar o tempo com outras coisas, conversar ao vivo, ler, cozinhar, dar um passeio. O efeito é quase sempre surpreendente: o mundo continua a girar mesmo quando não estamos a acompanhar cada segundo, e esse espaço de silêncio dá-nos mais clareza.
As redes sociais fazem parte da nossa vida contemporânea e não precisamos de lhes virar as costas. O que precisamos é de reaprender a usá-las de forma consciente, lembrando que nós é que escolhemos o ritmo. Em vez de deixar que nos engulam, podemos transformá-las em aliadas, em fontes de inspiração, de partilha e até de descanso. No fundo, é como escolher cuidadosamente um doce favorito numa pastelaria colorida, em vez de comer um saco inteiro de gomas sem pensar. O prazer está no sabor e na qualidade, não na quantidade.
#TheGlitterDream