A vida antes do WhatsApp

Lembro-me perfeitamente do dia em que liguei para casa de um rapaz de quem gostava e quem atendeu foi o pai dele. “Está o Rui?”, perguntei, com a voz mais firme que consegui arranjar, enquanto rezava para que ele não perguntasse quem falava. Ele perguntou. Desliguei o telefone fixo da sala, encostei-me à parede e passei os dez minutos seguintes a decidir se voltava a ligar ou se fingia, para sempre, que aquela chamada nunca tinha acontecido. Isto, hoje, parece uma cena de outro século. E é.

Antes do WhatsApp, ligar para alguém era sempre um pequeno ato de coragem, porque nunca se sabia quem ia atender do outro lado. Podia ser a mãe, o pai, o irmão mais novo a gritar “é para ti!” a plenos pulmões pela casa toda, ou, nos piores dias, a avó, que insistia sempre em saber quem era antes de chamar seja quem fosse. Sabíamos os números de telefone fixo dos amigos de cor, muitas vezes antes mesmo de saber o número de telemóvel deles, porque era esse o número que se decorava sem esforço nenhum, só de o marcar tantas vezes.

E depois havia os telemóveis, com os seus próprios rituais. Quando o saldo acabava a meio de uma conversa importante, entrava em cena o Kolmi, o serviço da TMN que permitia mandar uma mensagem gratuita a pedir que a outra pessoa ligasse de volta, sem gastar um cêntimo. Bastava marcar aquele código estranho, cheio de asteriscos e cardinais, e do outro lado chegava sempre a mesma frase: “Kolmi, o número tal pede para lhe ligar.” Quem era da Vodafone tinha o equivalente, o Toking, e passámos anos a comunicar sentimentos inteiros através de códigos: dois tokings seguidos quase sempre queriam dizer sim, um só, normalmente, era não. Nunca ninguém explicou exatamente as regras, mas todos as sabíamos.

Foi assim, entre telefones fixos, avós desconfiadas e códigos secretos inventados por operadoras móveis, que aprendemos a comunicar antes de existir qualquer aplicação a fazer isso por nós, em tempo real, com confirmação de leitura incluída. Hoje, basta escrever uma mensagem e saber, segundos depois, que já foi vista. Mas há qualquer coisa naquela incerteza antiga, naquele “será que ele está em casa”, que ainda faz falta. Não pela tecnologia em si, mas pela paciência que ela nos obrigava a ter, e pela forma como cada chamada, por mais simples que fosse, parecia sempre ter um pouco mais de peso.

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