Regresso às universidades: das latas ao batismo, estas são algumas das praxes mais conhecidas de Portugal

Setembro não traz apenas horários novos, casas partilhadas e a primeira crise existencial à procura do anfiteatro certo. Para milhares de caloiros, a entrada no ensino superior significa também descobrir um universo muito português de capas negras, serenatas, latas, batismos e tradições que mudam completamente de cidade para cidade.

A praxe académica continua a ser uma das imagens mais associadas ao início da universidade em Portugal, embora não exista propriamente “a” praxe portuguesa. Cada escola tem rituais e códigos diferentes. E convém esclarecer desde o início: participar é voluntário. A própria Universidade do Porto recorda que a adesão à praxe não é obrigatória e que existem outras formas de integração, desde núcleos de estudantes a atividades culturais, desportivas ou programas institucionais de acolhimento. O objetivo declarado das praxes é integrar quem chega; humilhação, coerção ou pressão para participar são outra coisa.

1. Coimbra: a Latada, provavelmente a mais icónica de todas. Se existe uma cidade onde a tradição académica praticamente faz parte da paisagem, é Coimbra. O momento mais visual é o Cortejo da Latada, com os caloiros a percorrerem a cidade acompanhados pelo barulho das latas. Historicamente, a participação no cortejo estava associada à passagem de estatuto dos caloiros, e hoje a festa continua profundamente ligada à simbologia académica da Universidade. Se nunca estudámos em Coimbra, basta passar pela cidade nesta altura para perceber que ali a vida universitária não acontece apenas dentro da faculdade.

2. Porto: um batismo na Fonte dos Leões para entrar oficialmente no espírito académico. A Receção ao Caloiro do Porto é praticamente uma semana inteira de introdução à vida universitária. A Federação Académica do Porto inclui no programa a Serenata de Receção ao Caloiro, o Dia da Beneficência, a Noite Negra, o Cascus Paper, o famoso Comboio do Caloiro e, no final, o Cortejo da Latada, Juramento e Batismo. Os novos estudantes atravessam as ruas da cidade a cantar e a arrastar latas até à Fonte dos Leões, onde decorrem o juramento e o batismo. É provavelmente uma das versões mais completas do “primeiro capítulo” da vida académica portuguesa.

3. Minho: Receção ao Caloiro, Latada e uma academia que leva as festas muito a sério. Em Braga e Guimarães, a Receção ao Caloiro é uma das grandes tradições da Universidade do Minho. A própria Associação Académica descreve-a como um momento de celebração e acolhimento de quem inicia o percurso universitário. Historicamente, a academia minhota também teve a sua Monumental Latada e rituais de batismo dos caloiros, incluindo cerimónias realizadas em Guimarães. E quem fica por lá rapidamente percebe que a tradição académica não termina em setembro: meses depois chega o lendário Enterro da Gata, uma das maiores festas universitárias do país.

4. Lisboa: quando a “praxe” troca os cânticos por voluntariado. Numa cidade com várias universidades e dezenas de faculdades, não existe uma única tradição académica lisboeta comparável à Latada de Coimbra. Há, porém, algumas alternativas particularmente interessantes. Na CATÓLICA-LISBON, por exemplo, o Dia Solidário tornou-se uma tradição de integração dos caloiros e uma alternativa à praxe tradicional: os novos estudantes já participaram na recolha de alimentos nos campos da Golegã, posteriormente destinados ao Banco Alimentar Contra a Fome. O ISEG também já levou a expressão “ajudar é da praxe” bastante à letra, envolvendo novos alunos na recuperação de uma escola através da limpeza e pintura dos espaços.

5. Técnico: a lendária “aula de praxe”. Esta é mais uma memória histórica do que uma prática que possamos assumir como generalizada atualmente, mas merece entrar pela criatividade. No Instituto Superior Técnico existiu durante anos a chamada aula de praxe: estudantes mais velhos faziam-se passar por professores numa das primeiras aulas dos caloiros, apareciam com listas intermináveis de livros, trabalhos e avisos sobre a dificuldade das cadeiras, enquanto outros veteranos se infiltravam entre os novos alunos para tornar a encenação ainda mais convincente. Antigos estudantes recordam-na como uma das tradições que marcaram gerações do Técnico. Imaginamos perfeitamente o momento em que alguém percebe que afinal não precisava de comprar 14 manuais até sexta-feira.

E depois existem todas aquelas coisas que, mesmo não sendo tecnicamente “praxe”, fazem parte do mesmo universo: o primeiro dia de traje, as serenatas, as tunas, os cortejos, as fitas, as capas e as festas académicas. No Porto, por exemplo, o traje continua particularmente associado às cerimónias, à época de praxe e aos grandes momentos da vida universitária.

É precisamente por isso que a entrada na universidade continua a ter um ritual próprio em Portugal. Para algumas pessoas, a praxe transforma-se na origem das amizades que ficam durante anos; outras preferem integrar-se através da associação de estudantes, do desporto, de uma tuna, de um núcleo ou simplesmente da pessoa que se sentou ao lado na primeira aula.

Todas são formas perfeitamente válidas de começar. Porque o verdadeiro rito de passagem universitário talvez continue a ser outro: chegar no primeiro dia sem conhecer praticamente ninguém e, algumas semanas depois, já ter um grupo onde perguntar “alguém percebeu o que o professor acabou de explicar?”

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