Somos a geração mais conectada de sempre mas somos incapazes de criar conexões. Passamos horas a pensar numa mensagem mas demoramos três dias para responder porque não queremos parecer “demasiado interessadas”. Sentimos mas fazemos de conta que não. Queremos amor, mas não queremos admitir que estamos à procura dele. Queremos atenção, mas fingimos que não reparámos e que nada daquilo que fizemos (e publicámos) foi totalmente pensado ao pormenor. Estamos desesperados por relações profundas, mas desaparecemos ao primeiro sinal de intimidade.
Ser indiferente tornou-se um traço de personalidade que todos querem ter, somos a geração do “tanto faz” e ai de quem admitir que sente falta. Normalizamos o casual, dizemos a nós próprios que não queremos nada sério, que estamos a ver no que dá mas a verdade é que estamos todos emocionalmente indisponíveis porque nos falta maturidade emocional.
Talvez nunca tenhamos vivido numa geração tão obcecada com a ideia de não parecer obcecada. E assim, entre ghostings, situationships e vistas que vamos dando (e levando), fomos criando uma cultura onde o desinteresse se tornou quase uma linguagem universal (que, carinhosamente, apelidamos de liberdade emocional). Queremos a intimidade sem o compromisso e a atenção sem a responsabilidade porque quando começa a ficar sério o nosso instinto é fugir. Não porque não sentimos. Mas porque sentimos demasiado e não sabemos o que fazer com isso.
Estamos constantemente a fugir daquilo que temos que enfrentar porque quando não aprendemos a ter conversas difíceis (mas necessárias), é mais fácil dizer que não queremos nada sério. Assumir a responsabilidade de gostar de alguém exige vulnerabilidade e vivemos numa geração que olha para ela como um monstro – porque o que é feito de nós se dermos uma chance e a relação funcionar?
As relações humanas não são jogos. Às vezes, responder depressa é apenas responder depressa. Às vezes, mandar a primeira mensagem significa apenas que queremos conversar. Temos stories, likes, close friends e mensagens privadas. Conseguimos saber onde alguém está, com quem está e o que está a fazer mas continuamos incapazes de perguntar: “O que é que nós somos? Onde é que queres levar a nossa relação?”.
Em vez disso, fazemos contas: “Demorou seis horas a responder, vou demorar oito”, “Viu o meu story e não respondeu”, “Deu-me vista, por isso também não vou dizer nada”. Mas em que é que nos tornámos? Quando é que começámos a avaliar sentimentos através de likes, stories e fotografias no instagram?
Estamos tão empenhados em proteger-nos que já não sabemos como nos entregar a alguém. Confundimos independência com isolamento, vulnerabilidade com fraqueza e amor-próprio com uma incapacidade quase patológica de precisar de alguém. Plot twist: precisamos.
E com isto não quero dizer que precisamos de voltar às cartas de amor (apesar de ser uma prática que acho que nunca devia ter desaparecido), nem de abandonar o dating moderno. Mas talvez pudéssemos, pelo menos, abandonar esta obsessão de tentar parecer indiferente. Porque demonstrar interesse é uma das coisas mais atraentes que alguém pode fazer.
Precisamos de garantias antes de sentir, green flags e uma check list completa antes de dar uma oportunidade a alguém. E, quando percebemos que gostar desse alguém implica inevitavelmente perder algum controlo, preferimos fingir que nunca estivemos assim tão interessados.
No meio de tantos jogos, estratégias, algoritmos e silêncios, a única coisa verdadeiramente triste foi termos deixado de ser honestos. Porque no fim, ninguém se apaixona por quem demora exatamente três horas e vinte minutos a responder. Apaixonamo-nos por quem aparece e fica. E um dia percebemos que passámos demasiado tempo a tentar parecer inesquecíveis para pessoas que nem sequer quiseram uma oportunidade de nos conhecer verdadeiramente.
Vou dizer-vos um segredo: a melhor forma de parecermos cool é a comunicar aquilo que sentimos.É termos a certeza que não vamos passar anos a pensar no que teria acontecido se tivéssemos tido coragem de dizer: “Eu queria mesmo que tivéssemos tentado”. É ter coragem para dizer o que queremos, quando queremos sem nos importarmos com o que vem depois.
Porque entre parecer indiferente e ser feliz, talvez esteja na altura de escolhermos a segunda opção.
Artigo por Rita Pinto Da Silva
#TheGlitterDream