Setembro é o novo janeiro? Porque é que tanta gente define objetivos nesta altura

Agenda nova, ginásio outra vez, refeições organizadas e uma vontade súbita de pôr a vida em ordem. Setembro tem cada vez mais energia de Ano Novo, só que sem passas, fogo-de-artifício ou resoluções feitas à meia-noite. E a psicologia ajuda a explicar porquê.

Janeiro tem oficialmente o monopólio dos recomeços, mas setembro disputa-lhe seriamente o lugar. Basta chegar ao final de agosto para começarmos a pensar em rotinas, cursos, exercício, alimentação, projetos que ficaram em pausa e tudo aquilo que prometemos fazer “depois das férias”.

Mesmo quem deixou a escola há décadas continua a sentir aquele estranho impulso de começar outra vez. Cadernos novos ainda parecem cadernos novos. Setembro continua a soar a início de ano. E não é apenas nostalgia.

O nosso cérebro gosta de capítulos

Os investigadores chamam-lhe fresh start effect. A ideia é que determinados marcos temporais: uma segunda-feira, um aniversário, o primeiro dia do mês ou o início de um novo ano criam uma espécie de fronteira psicológica entre aquilo que aconteceu antes e aquilo que pode acontecer a seguir.

Estudos mostraram que estes momentos podem aumentar a motivação para iniciar novos objetivos porque nos ajudam a criar distância da versão de nós próprios que falhou anteriormente. É mais fácil pensar “agora é que vai ser” quando sentimos que acabámos de entrar num capítulo novo. Setembro oferece precisamente isso.

Passámos a infância inteira a aprender que setembro significa começar

Durante muitos anos das nossas vidas, setembro representou literalmente um novo ano. Mudávamos de turma, comprávamos material, conhecíamos professores, começávamos atividades e recebíamos um horário completamente novo.

Essa associação fica profundamente enraizada: mesmo décadas depois de deixarmos a escola, setembro continua ligado à sensação de reorganização e regresso à rotina. Por isso, uma agenda comprada em setembro consegue parecer muito mais promissora do que a mesma agenda comprada em maio.

E depois há o verão

Janeiro chega depois de dezembro: festas, jantares, compromissos, pouco sono e uma passagem de ano que nos obriga, quase por decreto, a decidir quem queremos ser nos 12 meses seguintes. Setembro surge de outra forma. As férias criam uma interrupção natural na rotina. Trabalhamos a ritmos diferentes, viajamos, dormimos e comemos a outras horas e deixamos vários hábitos em suspenso. Quando regressamos, existe uma oportunidade concreta de construir novamente os horários.

É precisamente nestas transições que os novos hábitos podem ser mais fáceis de encaixar. Em vez de tentar introduzir uma mudança no meio de uma rotina completamente estabelecida, podemos associá-la às mudanças que já vão acontecer.

Setembro também vem com quatro meses ainda pela frente

Outra vantagem é que o ano ainda não acabou. Em janeiro, um objetivo parece ter de durar 365 dias. Em setembro, podemos pensar apenas no último trimestre: quatro meses para voltar a treinar, terminar um curso, reorganizar as finanças, ler mais ou avançar finalmente com um projeto. É suficientemente longo para fazer alguma coisa acontecer e suficientemente curto para não parecer uma promessa para toda a vida.

Além disso, setembro permite recuperar objetivos de janeiro que ficaram esquecidos sem termos de esperar pelo próximo réveillon.

Mas o entusiasmo de recomeçar não chega

O fresh start effect ajuda sobretudo a começar. Não garante que continuemos. O impulso provocado por um novo início tende a desaparecer e que a consistência depende depois da construção de hábitos, da redução de obstáculos e de objetivos realistas. Por isso, em vez de chegar a setembro com uma lista de 17 mudanças de personalidade, pode fazer mais sentido escolher uma ou duas.

Treinar duas vezes por semana em vez de prometer ir ao ginásio diariamente. Preparar alguns almoços em casa em vez de anunciar que nunca mais se encomenda comida. Ler dez minutos antes de dormir em vez de decidir acabar 30 livros até dezembro. Menos transformação radical, mais coisas que conseguimos efetivamente repetir.

Existe qualquer coisa particularmente agradável num recomeço que não vem acompanhado pela pressão de “ano novo, vida nova”. Setembro permite simplesmente regressar, reorganizar e tentar outra vez. Comprar um caderno. Limpar a secretária. Voltar ao ginásio. Inscrever-se naquele curso. Recuperar um projeto abandonado. Ou decidir que os próximos quatro meses vão ser ligeiramente diferentes dos anteriores.

Janeiro pode continuar com o título oficial. Mas setembro tem uma vantagem difícil de bater: já sabemos como o ano estava a correr e ainda vamos a tempo de mudar o final.

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